julho 30, 2008

Mantra

Por detrás daquele monte
passa boi, passa boiada ...

Passa a vida, apressada,
desvalida, desvairada,
sem um norte.

Certa é a morte!
A vida é, pois,
passaporte
para o nada.

junho 25, 2008

Minhas queridas manas

Meu nome - claro, vocês sabem - é Ricardo. Mas deveria ser também Luis. Deixa explicar. Eu nasci em 21 de junho, dia de São Luis Gonzaga e "la nona", católica como era, queria homenagear o santo do dia. Mas a mãe fazia questão que o nome fosse Ricardo. Num primeiro momento, elas teriam chegado a um acordo: ficaria Luis Ricardo. Ou Ricardo Luis, que sei! Mas na hora do batizado, Dona Dulce, num rompante puerperal - sabem como as mães são ciosas de suas prerrogativas - rompeu o acordo existente e abortou o Luis. Ficou só Ricardo. Ricardo Ramos Baldi. Muito prazer!
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E daí? - perguntarão vocês. Daí que o Luis nasceu junto comigo. Veio ao mundo em uma outra dimensão, só por mim percebida. De pequeno, a gente conversava quando estávamos sozinhos. Coisas de criança, diziam. Amigo invisível, diziam. Nada disso. Era ele que vez ou outra aparecia para brincar comigo.

Houve uma curta época, eu tinha uns cinco anos, em que o Luis esteve muito presente. A gente se via diariamente. É que tínhamos nos mudado para aquela casa da Rua 20 de Setembro - vocês não a conheceram. Era uma casa grande, velha e feia. Habitada por bruxas. E de noite, quando elas vinham do porão para o meu quarto, eu me escondia atrás dele, até que o sono me libertasse do medo.

Depois cresci e o Luis se afastou.

Anos depois, eu já maduro e torto, o reencontrei. Ele veio, decerto, porque sabia que eu precisava. No início, pedi apenas que me representasse em velórios - o Luis tinha mais jeito e prumo. Dizia e fazia as coisas certas nas horas apropriadas. Conseguia o delicado equilíbrio entre passar despercebido e constar como presente.

Fui me acostumando com a sua disponibilidade. Passei a delegar mais e mais tarefas. Me dar carona da casa para o trabalho. Participar de reuniões-almoço, atender visitas, fazer o rancho no super. Ele acabou por se encarregar de toda a minha rotina. Virou uma espécie de piloto automático. Assumiu o controle.

Acontece que o Luis também vem sofrendo a ação do tempo. Está mais preguiçoso, mais esquecido, mais propenso a cometer gafes. Chega quando menos espero e parte sem aviso. As vezes me prega peças. De repente me passa a direção do carro em plena via expressa, dois desvios após a saída para o aeroporto. Esquece a carteira no bolso do outro paletó e eu é que tenho que pagar a conta. Coisas desse gênero.

Vejam só que aconteceu ontem. Acordei assutado no meio da noite - lá estava o Luis me dizendo que fez uma lamentável confusão. Mandou para ti, Beth, o cartão de teu aniversário, Paula. E isso que eu recomendei tanto ... Mas, sabe como é, na hora da ação é ele que acaba entrando em campo e faz as confusões.

Imperdoável. Vocês devem ter pensado: "Caco tá gagá"! Com toda a razão, aliás. Mas é tudo culpa do Luis, o meu piloto automático, que desregulou de vez e agora me passou a bola nessa roubada, para as devidas explicações.

Não há explicações. Mas amo vocês. Todos os dias do ano.

Ricardo.


PS. O sonso vive me acusando! Mas nesse caso, assumo a culpa. E peço desculpas.

Atenciosamente

Luis.

junho 24, 2008

Canibais

Canibais que somos,
temos que metabolizar
os nossos mortos.

Mastigando-os em orações,
deglutindo-os em soluços,
excretando-os em lágrimas
até a sua consumação final.

Lentamente ...

com a corrosiva paciência dos ácidos
a dissolver os vestígios de uma pérola.

Prá não dizer que não falei de flores!

Do amor perfeito, no meu peito, sempre viva ...
esplendorosa, fresca rosa de carmim.

O amor distante a todo instante me procura ...
persistência da fragrância de jasmim.

Do amor extinto eu já sinto dor amarga ...
mal ferida margarida morre em mim.

Os meus amores plantam flores no meu peito,
mas a saudade é que cultiva esse jardim.

setembro 11, 2007

Os caminhos tortos do Judiciário

Um certo Josoé da Silva, servente de profissão, foi acusado de furtar algumas peças de roupa deixadas num quarto do hotel em que trabalhava. O hóspede deu pela falta das roupas, chamou a polícia, que identificou e prendeu Josoé. As roupas, avaliadas em R$ 95, foram restituídas ao seu legítimo dono. Esse foi o crime atribuído ao servente. Ponto.

E aqui começa a novela. A autoridade policial ultimou suas diligências, concluiu o inquérito e o remeteu ao Ministério Público. O MP ofereceu denúncia que foi rejeitada na primeira instância, tendo a juíza justificado sua decisão em nome do "princípio da insignificância". O MP, inconformado, recorreu dessa decisão ao Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Esse manteve a decisão do primeiro grau, considerando que "a conduta do acusado não causou lesividade tão relevante à ordem social" e que a onerosidade inerente ao processo seria desproporcional à gravidade do crime. O MP, ainda inconformado, levou o caso ao Superior Tribunal de Justiça. Os ministros do STJ, após cuidadoso exame, entenderam de anular as decisões anteriores, determinando fosse recebida a denúncia e instaurada a ação penal. Aí entrou em cena a Defensoria Pública da União, para impetrar Habeas Corpus em favor de Josoé perante o Supremo Tribunal Federal. A Defensoria Pública sustenta que o provimento do Recurso Especial pelo STJ, ao ordenar o recebimento da denúncia, afasta, "equivocadamente, a aplicação do princípio da insignificância" causando "sério e efetivo constrangimento ao impetrante", solicita liminarmente "a suspensão dos efeitos da decisão do STJ e, no mérito, o trancamento da ação penal" alegando "a ausência de justa causa para a propositura da ação".

Quanto tempo terá á decorrido desde o delito? Duvido que não se tenham passado pelo menos dois anos. R$95!!! Nesse momento, a continuidade do processamento desse tormentoso e fundamental caso depende da decisão dos ministros do "Pretório Excelso" ...

janeiro 31, 2007

A revolução das abelhas virgens


A "Nature" de novembro do ano passado trouxe uma notícia interessante, um estudo de dois cientistas britânicos sobre o comportamento de abelhas, vespas e congêneres. Os autores derrubam o mito de que a reprodução desses insetos, que, como se sabe, é função privativa da rainha-mãe, seja regido por um "altruísmo reprodutivo comunitário natural" - uma concessão instintiva das plebéias à nobreza, em nome, quem sabe, do aprimoramento genético da espécie ou da preservação da ordem e do progresso da colméia.
...
Eu, que nunca tinha ouvido falar desse assunto, até imaginava que as obreiras eram estéreis. Mas fiquei sabendo que não; elas não sofrem de qualquer impedimento genético. Dispõem de um aparelho reprodutor plenamente funcional e são aptas a procriar. O estudo revela - e este é o ponto central - que não há uma renúncia voluntária das abelhas à procriação, nada de "altruismo reprodutivo". Na verdade, muitas operárias, inconformadas com o seu status social, insistem em botar ovos. Mas esses são sistematicamente destruídos pela rainha e por suas auxiliares mais chegadas. Quanto mais eficaz a destruição, menos operárias se dispõem a transgredir a lei.

Afirmam os autores (e aqui cito literalmente o texto da Folha de São Paulo, onde a notícia foi publicada) que "vínculos familiares próximos foram provavelmente necessários para a evolução das sociedades de insetos. Nessas circunstâncias, ajudar a sua mãe é o modo mais eficiente de propagar seus próprios genes. Quando a eussocialidade se originou havia provavelmente muito pouca coerção e os indivíduos que ajudavam o faziam por estar criando parentes próximos. Mas desde então muita coisa mudou nas sociedades de insetos. Uma das novidades foi o desenvolvimento de mecanismos para prevenir que alguns insetos ajam contra os interesses da sociedade. Há quem acredite que as rainhas poderiam usar as operárias como 'escravas', forçando-as a tal situação ao lhes dar pouco alimento."

Aí está! Nem mesmo nas colméias, esses modelos por excelência da vida comunitária, as simpáticas abelhinhas permanecem fiéis ao mito socialista. Adotaram-no em priscas eras, premidas pelas circunstâncias. Mas a História e a Ciência se encarregaram de desmontar a fraude. E agora, como se vê, o proletariado apícola conspira no breu das tocas. Morram as czarinas! - devem estar suplicando as pobres obreiras, acendendo velas nos becos. Marx, se vivo estivesse, diria a essas desafortunadas - mas dessa vez meio incerto quanto ao sentido do seu repto: Operárias de todo o mundo, uní-vos!

E por falar em socialismo e animais, lembrei-me do latino Chaves. Ou Chavez, que seja. Refiro-me não ao cômico mexicano, mas àquele orangotango de olhar obtuso e enraivecido que tomou posse da Venezuela. Ele se autoproclama defensor do povo e promete trilhar de novo um caminho que - até as abelhas já desconfiam - leva a lugar nenhum. Mas a surrada afirmação de defesa dos pobres e oprimidos ainda é um bom mote. E para Chavez o epílogo da empreitada não importa, o que vale é o seu trajeto individual.

Como dizia o revolucionário Bakunin: "Quem duvida disso não conhece a natureza humana".

dezembro 22, 2006

Para refletir

Da caixa postal
Do anarquista russo do século 19, Mikhail Bakunin (1814-1876):

"Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana."

dezembro 18, 2006

Ponto de vista

Da caixa postal

Rumo ao céu!

A aeromoça está dizendo: - “O assento de sua poltrona é flutuante. Em caso de pouso na água ...” - Meu Deus, como é que se pode cogitar de um pouso na água num vôo para Belo Horizonte? Onde o comandante vai encontrar água suficiente para pousar este monstro? A propósito, será que esses assentos flutuantes, tão fofinhos, ajudam a amortecer uma queda no seco?
...
A aeromoça continua: - “Em caso de despressurização da cabine, máscaras de oxigênio cairão automaticamente ... puxe para si a mais próxima e respire normalmente” - “Como respirar normalmente?” - penso. - A cabine sendo despressurizada, as máscaras caindo – provavelmente o avião também - e eu respirando normalmente? Impossível, fora de questão. (No way, miss! - já que a aeromoça ensaia a mesma ladainha, agora em inglês).

Calma, Ricardo. Respira fundo! Olho para a minha direita. Uma freirinha magrela, feiosa, de chapelão branco, mãos postas e sorriso angelical, murmura uma prece. Um quadro perfeito de paz, de tranqüilidade e de fé inabalável nos desígnios do Senhor. A freira deve estar convencida de que se avião despencar ela irá em sentido contrário, direto para o céu. Isso explica o sorriso. Egoísta ... Calma, calma. Não julgueis para não serdes julgado. E depois, o que tiver que ser, será. O destino está escrito nas estrelas ... nove entre dez delas, aliás, preferem uma determinada marca de ... creme, sabonete ou xampu? Creme não! Sabonete ou xampu? Sabonete! ... eu acho.

Nove entre dez ... minhas chances de sobrevivência serão maiores do que nove entre dez? Sei lá. Mas não tenho pressa em descobrir. Por mim o céu pode esperar ... “O céu pode esperar” - isso é um filme? Se é, eu ainda não o vi. Verei, se houver amanhã. Ooops! A freira me viu! Desvio os olhos depressa, antes que ela repare na minha angústia. O que eu menos preciso agora é de alguém com metade de minha idade me chamando de seu filho.

Na outra poltrona está sentado um gordo. Arfando, à beira de um ataque de nervos. Pânico puro. Esse é dos meus. Ao contrário da santa magrela, deve ser um pecador inveterado. “Sua em bicas” - como diria o Irmão Bonifácio, em seu português arcaico ... Não vejo o Bonifácio desde o colegial, faz aí uns quarenta anos. Onde estará o velho Bonifácio? Provavelmente no inferno, o sádico. Deixa prá lá.

O gordo não cabe no seu lugar. Sua aflição! Sua aflição, seus fluidos e adiposas excrescências invadem a minha poltrona e se esparramam ao meu redor - umidades, odores e um cotovelo ameaçador nas minhas costelas. Inicio uma silenciosa disputa com o gordo para dominar o braço da poltrona. Em vão, o gordo é uma montanha absolutamente compacta e, além do mais, não tem para onde recuar. Porca miséria!

O ruido agora fica mais e mais alto. Parece que as turbinas vão explodir. Sinto o avião se arrastar na pista, ganhando velocidade. Cada vez mais depressa... Mas ainda grudado no chão... O tempo está se esgotando. O fim da pista se aproxima! Cada vez mais depressa! Voa, avião, pelo amor de Deus!!! Finalmente, uma última sacudida e lá vamos todos nós, eu, a santa freirinha e o gordo pecador, rumo ao céu!

dezembro 05, 2006

As leis da ditadura

Só muito raramente os regimes ditatoriais se assumem como tal. No mais das vezes, quando ainda a vergonha não se perdeu de todo, procuram vestir uma fantasia democrática. Mas o disfarce nunca é totalmente bem sucedido, afinal "não se pode enganar a todos, todo o tempo". A indumentária nunca lhes cai bem e a máscara, ao contrário, sempre acaba caindo. As contradições do regime ficam bem em contraste - assim como a boca tão grande da vovózinha - quando se lhe examinam as leis. E a razão é clara, não se pode pretender o poder absoluto e, ao mesmo tempo, estabelecer limites legais ao seu exercício. Eis aí, portanto, um critério preciso: examinem as leis de um país e saberão se se trata ou não de um Estado democrático.

Querem exemplos? Vocês lembram da famigerada Lei de Segurança Nacional, o Decreto-Lei 314, de 1967? O que a oposição ao regime de 64 reclamou dessa lei - e com inteira razão, diga-se de passagem! O quanto os democratas de então repudiaram-na! E se não o fizeram de forma mais incisiva, certamente foi por medo de incorrerem eles próprios nas sanções da dita cuja. Vou transcrever três dos seus artigos. Verdadeiros primores. Ei-los:
...Art. 14. Divulgar, por qualquer meio de publicidade, notícias falsas, tendenciosas ou deturpadas, de modo a pôr em perigo o bom nome, a autoridade o crédito ou o prestígio do Brasil: Pena - detenção, de 6 meses a 2 anos.
...
Art. 21. Tentar subverter a ordem ou estrutura político-social vigente no Brasil, com o fim de estabelecer ditadura de classe, de partido político, de grupo ou de indivíduo: Pena - reclusão, de 4 a 12 anos.
...
Art. 38. Constitui, também, propaganda subversiva, quando importe em ameaça ou atentado à segurança nacional: I - a publicação ou divulgação de notícias ou declaração; ... Pena - detenção de 6 meses a 2 anos.
...

Que tal? "Divulgar notícias tendenciosas de modo a por em perigo o bom nome do Brasil", "tentar subverter a ordem político-social vigente", "publicar ou divulgar notícias ou declarações que importem em ameaça à segurança nacional"! Sem nem mesmo adentrar o mérito ético dos preceitos em si, reparem apenas na imprecisão com que os delitos são tipificados. Imaginem o quanto de subjetividade pode ser empregado ao interpretar esses tipos penais. Imaginem o nível de arbitrariedade concedido ao julgador militar!

Pois bem. Resolvi aplicar esse meu teste de democracia à "Isla de Fidel". Procurei, nas leis cubanas, um paralelo aos dispositivos acima citados. Encontrei-os. Estão no artigo 103 do Código Penal:

ARTÍCULO 103.
1. Incurre en sanción de privación de libertad de uno a ocho años el que:
a) incite contra el orden social, la solidaridad internacional o el Estado socialista, mediante la propaganda oral o escrita o en cualquier otra forma;
b) confeccione, distribuya o posea propaganda del carácter mencionado en el inciso anterior.
2. El que difunda noticias falsas o predicciones maliciosas tendentes a causar alarma o descontento en la población, o desorden público, incurre en sanción de privación de libertad de uno a cuatro años.
3. Si, para la ejecución de los hechos previstos en los apartados anteriores, se utilizan medios de difusión masiva, la sanción es de privación de libertad de diez a quince años.

Notável não é? "Incitar contra o Estado socialista" não é o mesmo que "incitar contra Cuba", é simplesmente assumir uma posição contrária a uma abstração - o tal Estado socialista! Possuir material que possa ser usado para veicular idéias contra o socialismo, a rigor, já pode ser considerado crime. "Difundir predições maliciosas (apenas) tendentes a causar alarma ou descontentamento na população". Que prato cheio para um juíz parcial, a serviço do regime! Nesse nível, bem que podiam botar também "corromper a juventude", numa homenagem póstuma a Sócrates.

Tudo bem pesado, conclui-se que se o regime militar brasileiro de 64 foi uma ditadura (e foi!), então Cuba igualmente o é (e é!). O que se pode, ainda, é comparar o grau de abertura desses regimes, o quanto se preservou dos direitos democráticos num e noutro caso.

Mas isso já é outra história.