
A aeromoça está dizendo: - “O assento de sua poltrona é flutuante. Em caso de pouso na água ...” - Meu Deus, como é que se pode cogitar de um pouso na água num vôo para Belo Horizonte? Onde o comandante vai encontrar água suficiente para pousar este monstro? A propósito, será que esses assentos flutuantes, tão fofinhos, ajudam a amortecer uma queda no seco?
...
A aeromoça continua: - “Em caso de despressurização da cabine, máscaras de oxigênio cairão automaticamente ... puxe para si a mais próxima e respire normalmente” - “Como respirar normalmente?” - penso. - A cabine sendo despressurizada, as máscaras caindo – provavelmente o avião também - e eu respirando normalmente? Impossível, fora de questão. (No way, miss! - já que a aeromoça ensaia a mesma ladainha, agora em inglês).
Calma, Ricardo. Respira fundo! Olho para a minha direita. Uma freirinha magrela, feiosa, de chapelão branco, mãos postas e sorriso angelical, murmura uma prece. Um quadro perfeito de paz, de tranqüilidade e de fé inabalável nos desígnios do Senhor. A freira deve estar convencida de que se avião despencar ela irá em sentido contrário, direto para o céu. Isso explica o sorriso. Egoísta ... Calma, calma. Não julgueis para não serdes julgado. E depois, o que tiver que ser, será. O destino está escrito nas estrelas ... nove entre dez delas, aliás, preferem uma determinada marca de ... creme, sabonete ou xampu? Creme não! Sabonete ou xampu? Sabonete! ... eu acho.
Nove entre dez ... minhas chances de sobrevivência serão maiores do que nove entre dez? Sei lá. Mas não tenho pressa em descobrir. Por mim o céu pode esperar ... “O céu pode esperar” - isso é um filme? Se é, eu ainda não o vi. Verei, se houver amanhã. Ooops! A freira me viu! Desvio os olhos depressa, antes que ela repare na minha angústia. O que eu menos preciso agora é de alguém com metade de minha idade me chamando de seu filho.
Na outra poltrona está sentado um gordo. Arfando, à beira de um ataque de nervos. Pânico puro. Esse é dos meus. Ao contrário da santa magrela, deve ser um pecador inveterado. “Sua em bicas” - como diria o Irmão Bonifácio, em seu português arcaico ... Não vejo o Bonifácio desde o colegial, faz aí uns quarenta anos. Onde estará o velho Bonifácio? Provavelmente no inferno, o sádico. Deixa prá lá.
O gordo não cabe no seu lugar. Sua aflição! Sua aflição, seus fluidos e adiposas excrescências invadem a minha poltrona e se esparramam ao meu redor - umidades, odores e um cotovelo ameaçador nas minhas costelas. Inicio uma silenciosa disputa com o gordo para dominar o braço da poltrona. Em vão, o gordo é uma montanha absolutamente compacta e, além do mais, não tem para onde recuar. Porca miséria!
O ruido agora fica mais e mais alto. Parece que as turbinas vão explodir. Sinto o avião se arrastar na pista, ganhando velocidade. Cada vez mais depressa... Mas ainda grudado no chão... O tempo está se esgotando. O fim da pista se aproxima! Cada vez mais depressa! Voa, avião, pelo amor de Deus!!! Finalmente, uma última sacudida e lá vamos todos nós, eu, a santa freirinha e o gordo pecador, rumo ao céu!
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