junho 07, 2006

Prefácios

Alguém ainda lê prefácios? Eu não mais, confesso. Com o tempo e a idade, tornei-me avesso aos prefácios. Estou convencido de que sua leitura exige tenacidade e paciência acima das minhas forças. Considero-os insidiosos, como uma selva tropical, cheios de terríveis perigos a espreita do leitor incauto - pradarias desertas de significado, cachoeiras de palavras obscuras, vocábulos soltos ao vento. Nessa desolada travessia, V pode encantar-se com bichos-preguiça e se deixar ficar pelo caminho. Pode topar com peçonhentas tsé-tsé verbais e tombar vítima da moléstia do sono prematuro. E tudo isso para chegar, finalmente, ao marco zero da empreitada - o capítulo primeiro - e constatar que a tarefa propriamente dita não começou, há todo um livro ainda para ler!
...A propósito de prefácios, há uma lenda moura sobre a destruição da famosa biblioteca de Alexandria. Não deve ser verdade, mas merece ser contada. Em 640 DC, os árabes tomaram Alexandria. Tendo tido notícia de que na cidade havia "uma grande livraria, contendo todo o conhecimento do mundo", o comandante do exército invasor pediu instruções sobre como proceder a Omar, o Califa. Omar ordenou a queima dos livros sob o argumento de que "ou eles contradizem o Corão, caso em que são heréticos, ou eles concordam com o Corão, caso em que são supérfluos". Até aí vai a história (como contada por um bispo cristão, suspeito de tê-la inventado). Agora vem a lenda a que eu me referi antes. O Califa, antes de proferir o veredito, consultou um seu Vizir, que sugeriu a queima dos livros ou a seguinte alternativa: - "Determine que nossos escribas produzam extensos prefácios e que esses sejam antepostos às obras infiéis. Elas, assim soterradas, não oferecerão perigo aos crentes". O Califa optou pela solução que lhe pareceu mais direta: mandou tocar fogo na biblioteca. Alá seja louvado!

Dito isso, peço licença para, ao reverso de Vargas, deixar a história para reentrar na vida.

Acho que minha aversão aos prefácios tem a ver com o fato de que estou ficando velho, a vida está cada vez mais apressada e não li tudo o que deveria ter lido na juventude. Há imensas lacunas culturais a preencher. E o tempo está cada vez mais escasso. Por exemplo, esses dias me dei conta de que não li "Em busca do tempo perdido", de Proust, segundo dizem, uma obra magnífica, um verdadeiros marco da literatura moderna. Saí a campo em busca do livro e descobri, desanimado - pasmem os incultos - que são sete volumes. Onde, meu Deus, vou arranjar tempo para ir em busca do tempo que Proust perdeu?

O pessoal da Saraiva teve uma boa idéia. Estão editando as obras completas de Proust, em forma de revistas em quadrinhos. Essa talvez seja uma solução para o meu problema - se as letras forem graúdas e as gravuras coloridas.

maio 17, 2006

Hay que endurecer!

Entre tantas façanhas do Guevara, há uma literária, especialmente famosa. Trata-se da criação da frase - "Hay que endurecerse pero sin perder la ternura". A frase foi proclamada e entendida num contexto político - como uma receita do necessário equilíbrio pessoal que deve ter um líder revolucionário. Penso, todavia, que possa ter sido criada em circunstâncias bem diversas. Imagino a cena: Sierra Maestra, agosto de 1958. O jovem Che está deitado com Pepita, uma ardente e apaixonada revolucionária. Há um certo mal estar, um clima de fim de festa. O sexo não rolou, problemas com a vara do Che. Guevara, pensativo, imagina se não terá faltado ternura nas preliminares. Daí, num repente, o insight! Surgira o mote que hoje emporcalha muros e enfeita t-shirts pelo mundo a fora.
...Mas essas são preliminares, meu assunto é outro. Quero comentar rapidamente sobre a recente onda de violência em São Paulo, patrocinada pelos criminosos do PCC. Dezenas de policais foram executados a sangue-frio. Ônibus queimados. Paralisia no transporte público. Lojas fechadas. Toque de recolher de fato. Derrota, mais uma, da sociedade. Um sinal, mais um, do fim desses tempos brasileiros. Definitivamente "a coisa aqui tá preta" - como diria o Chico.

Mas "pau que bate em Chico, bate em Francisco", os representantes da legalidade decidiram ir a forra. Nesta quarta-feira, os jornais noticiam que a polícia caiu de pau na bandidagem e em uma única noite foram mortos outras tantas dezenas de criminosos, reequilibrando as contas. Os policiais aventam também a hipótese de ressucitar uma simpática instituição brasileira, dos tempos da Redentora, os Esquadrões da Morte. Simpática, aqui, infelizmente não tem qualquer conotação de ironia. É o salve-se quem puder geral. É o "nós ou eles"!

A frase do Guevara, como recomendação às nossas autoridades policiais, poderia ser, quem sabe, alterada para "Hay que endurecer pero sin volver a la tortura". Eu, cínico e direto como sou e já sem o vigor dos melhores anos, me contento com um simples "endurecerse". Ponto.

abril 07, 2006

A técnica do ABC

Cheguei à velhice. Definitivamente. É inexorável, eu sei - os que, como eu, não morreram antes do tempo, aportam necessariamente a essa última etapa da vida e têm de enfrentar as mazelas próprias da idade provecta. Essa perspectiva existencial, vista num contexto amplo, não chega a me tirar o sono. Sono, aliás, não seria problema nesse caso, já que nós, idosos, dele precisamos menos. Entretanto há uma conseqüência da velhice que me atemoriza, trata-se da minha progressiva - e vertiginosa, devo acrescentar - perda de memória. Os lapsos tem sido cada vez mais freqüentes, as lacunas cada vez mais profundas e o que é cruelmente irônico, não consigo esquecer que estou ficando esquecido.
Continua ...O embotamento da memória me parece especialmente grave porque estou convencido de que a minha identidade e minha própria auto - consciência dependem da companhia do meu passado. Só a lembrança dos meus prazeres e dores, dos meus amores e ódios e das minhas certezas e dúvidas me fazem ser o que sou. Mais ainda, se algo sobreviver à minha morte, só poderá ser a memória (e não uma "alma", essa coisa indefinível e estranha que nada tem a ver comigo!). No mais, é doloroso pensar que toda a minha bagagem afetiva e intelectual, acumulada a custa de tanto sacrifício, está sendo devolvida vagarosa e melancolicamente ao limbo da inexistência.

Mas chega de filosofia. Voltemos ao problema prático.

Tenho tentado de tudo para retardar o desenlace fatal. Palavras - cruzadas, gingobiloba, neurolinguística, etc. Aderi, inclusive, a prática de um exercício para reforçar a minha minguante e escorregadia função cerebral. A ginástica é assim: estabeleço uma categoria qualquer de itens, digamos, os meus sobrinhos por exemplo, e tento me lembrar do nome de toda a série, um por um. O diabo é que esse exercício, além de obsessivo - sempre há mais alguma categoria a me desafiar - é terrivelmente frustrante, pois raramente chego ao fim da seqüência. Ontem mesmo eu havia me proposto a lembrar do nome dos presidentes da FIFA, em ordem reversa. Passei facilmente pelo Blatter (de quem, por sinal, não lembro mais o primeiro nome) e, acreditem!, empaquei no Havelange. Justo no Havelange, um conterrâneo meu, famosíssimo, cinqüenta anos na mídia mundial. O curioso é que eu lembrava perfeitamente da fisionomia do sujeito, mas o nome permanecia encalhado em algum neurônio qualquer. Nesses casos eu apelo para um último recurso, a técnica do ABC. É assim: pego o A, a primeira letra do alfabeto, e tento ver se o nome procurado começa com essa inicial. Se não funcionar, passo para o B, depois para a letra seguinte e assim por diante. Se chegar ao Z, sem resultado, fica o consolo de que, pelo menos, não esqueci do alfabeto.

fevereiro 02, 2006

Os peixes do Danúbio

Ricardo
Aposto que você não sabia que Beethoven residiu durante toda a sua vida em Viena, na Áustria e que era um habitual consumidor de pescados do Danúbio, capturados nos arredores da cidade. Dizem que em virtude da extrema poluição naquele trecho do rio, o genial compositor acabou morrendo, vítima de um lento e progressivo envenenamento por chumbo.
... ...

dezembro 20, 2005

Ratos

No imaginário popular os ratos contrapõem-se aos homens. Trata-se de uma simbologia cultural – os ratos personificam a ausência de caráter, ao passo que os homens caracterizam-se por íntegros e retos. Há nesse modelo um preconceito contra os roedores e uma extremada condescendência para com os humanos. Em todo o caso, admitamos essa hipótese simbólica para comentar o quadro político atual, em que homens passaram a agir como ratos.
...Relembremos a história do PT. Até a tomada do poder, alardeavam a excelência do seu partido. Um partido honesto e íntegro, constituído por homens honestos. “O PT não rouba nem deixa roubar” - exclamava o seu líder máximo. Essa era a marca registrada do partido e o seu grande diferencial em relação aos demais. Mas, como ficou claro mais recentemente, isso não era verdade. Após assumir o poder, foi se tornando evidente que o PT abrigava também gatos – eis aí mais uma metáfora animal. E os bichanos partidários, que antes se alimentavam apenas nas lixeiras municipais, passaram a agir com desfaçatez crescente. A corrupção foi organizada em escala de indústria, com abrangência nacional.

Gatos – a gente sabe - existem em todos os partidos. Não é uma característica única do PT. Mas não quero falar deles, porque seu comportamento tem uma lógica simples, velha como o mundo, sem mistérios. Gatos não têm partido, não têm ideais. Gatos são apenas gatos. Vamos deixá-los de lado. O que me intriga e surpreende é porque os homens do PT se transformaram e passaram a agir como ratos.

De fato, a corrupção está comprovada. Há esmagadora evidência da cumplicidade de elementos da cúpula partidária. O comportamento do líder máximo também apóia a tese de que os fatos eram de seu conhecimento. Há um princípio jurídico, muito invocado no direito dos Estados Unidos, de que a prova deve ser suficiente para afastar qualquer dúvida razoável. Ultrapassado esse limite de razoabilidade, compete ao acusado provar a sua inocência. Alguém tem alguma dúvida sobre a responsabilidade do PT, nesse caso? Nem estou falando de responsabilidade penal, mas de responsabilidade política. Nem estou falando da utilização do caixa dois (fato que o PT admitiu e já “pediu desculpas” à sociedade). Estou falando de corrupção mesmo, do assalto aos cofres públicos, da lavagem de dinheiro e da evasão de divisas.

Em vista de tudo isso, o PT está à deriva. O barco está fazendo água. O naufrágio é iminente. Os ratos estão no convés, aflitos. Muitos sabem que vão morrer afogados no mar de lama. Mas nem assim enfrentam, como homens, os questionamentos e as cobranças que lhe são feitas. Desconversam. Silenciam. Ou dizem que as provas são insuficientes, que tudo deve ser apurado - doa a quem doer. Lembram que todos os partidos são iguais. Apontam estatísticas sobre as realizações do atual governo. Ou então negam. Negam pateticamente, a despeito de todas as evidências e à custa de toda a racionalidade.

Para onde foram os homens? Onde estão os que não se conformam em jogar fora a sua credibilidade, a sua história pessoal e a própria história do partido que ajudaram a criar? Onde estão os que se recusam, em respeito aos seus eleitores, de participar dessa ópera bufa?

dezembro 06, 2005

Deus existe!

Maria não tem nada. Só uma historia. Brasileira, pobre e favelada. Nem branca, nem preta, tem a cor, a cara, o cheiro e o jeito dos miseráveis. Profissão: catadora de lixo. Sua vida pode ser contada em dois tempos. Eis o resumo.
...Nasceu e se criou num canto qualquer do Cantagalo. Ajudou a mãe na cata de lixo desde que se entendeu por gente. Passou fome toda a vida. Não aprendeu a ler. Não conheceu o pai. Aos doze anos, já mais crescida e jeitosa, foi abusada pelo tio – estupro não, seu doutor, isso é coisa de rico, o tio lhe deu uns tapas para parar de chorar e meteu nela. Foi bem assim - mas reclamar para quem? Grávida aos quinze - emprenhou, nem soube como ou de quem, mas a cria lhe morreu ainda no bucho -. Aos dezoito encontrou o Jenival. Gostou dele - Jenival era boa gente. Tinha prumo na vida, tirava o seu sustento de biscates nas praias. Não mexia com droga, não tinha bronca com a polícia. Juntaram os trapos num barraco lá no Esqueleto.

Dois anos e uma filha depois, as coisas pioraram. - Foi aí que o Jenival deu de ficar ruim. Mas ruim por nada, ruim por gosto. Começou a beber. Largou do trabalho. Arranjou outra. Passou a bater nela, e cada vez com maior freqüência. - Batia por qualquer coisinha, as vezes porque implicava com o choro da criança, as vezes porque não gostava da comida, as vezes por nada, só por gosto. Batia prá valer, seu doutor, de deixar a gente estropiada.

Um dia, chegando em casa, o marido lhe pediu dinheiro. Ela deu o que tinha, uma nota de dez. O homem perguntou onde tinha arranjado a grana e ela lhe disse que ganhara no bingo, que às quintas-feiras tinha um daqueles sorteios de graça para chamar o povo. Então Jenival sentenciou: - Pois de agora em diante, tu vai lá todas as quintas. Se tu ganhar, me traz o dinheiro, se tu perder, te arranco o couro a pau. Daí por diante, toda a quinta-feira a surra era certa.

Na noite do crime, Jenivaldo, bêbado e pingando droga, apareceu em casa com uma arma. - Apontou pra minha cabeça e disse: reza vadia, que a tua hora chegou. Depois, sabe lá por que, trocou de idéia. Começou a rir. Deixou o revólver na mesinha e anunciou: A gente faz assim, vou dormir e tu mesmo te mata. Tu tem prazo até amanhã. Se amanhã tu ainda tá viva, daí eu acabo com tua raça. E caiu duro na cama, roncando feito um porco. E eu, doutor, fiquei alí, sem saber o que fazer. Fugir pra onde? Pedir ajuda pra quem?

Maria pegou pena mínima. Já está solta e voltou à sua rotina de fome e lixo. Mas não chora nem se queixa. Apenas não entende a sua vida - procura respostas que ninguém consegue lhe dar. Agora resolveu entrar para uma dessas igrejas evangélicas em que se tropeça a cada esquina. Por força das circunstâncias, está convencida de que Deus existe. Tem que existir! Quando mais não seja, para, algum dia, lhe dar as devidas explicações.

novembro 20, 2005

Nevado del Ruiz

Em 1985 - faz agora exatos vinte anos - ocorreu a última erupção do Nevado del Ruiz. Foi o segundo maior desastre vulcânico em todo o século passado. Quase trinta mil colombianos morreram afogados. Tratando-se de uma erupção vulcânica, é curioso que afogamento tenha sido a principal causa do morticínio. Mas há uma explicação para isso. É que a lava vulcânica que escorreu pela montanha foi se misturando com a neve das encostas para formar, ao final, um imenso e profundo mar de lama que sepultou milhares de pessoas na planície mais abaixo.
...No Brasil, como se sabe, não temos erupções vulcânicas. Mas nem por isso estamos livres das inundações de lama, que são, na verdade, fenômenos bem conhecidos e recorrentes em nossa história política. Volta e meia - como vem acontecendo agora -, a despeito das barreiras de contenção criadas pelas instâncias do poder constituído, a pressão subitamente extrapola os níveis controláveis e uma quantidade oceânica de imundície emerge de camuflados reservatórios subterrâneos e verte despudoradamente do planalto para as planícies deste país.

Mas aqui, diversamente da Colômbia, o mar de lama não sepulta; descobre.

Descobre as mazelas dos chamados Poderes da República. Demonstra a hipocrisia de projetos políticos que, alardeados como de construção da justiça social, destinam-se, de fato, a reprodução e perpetuação no poder. Expõe a verdadeira face das autoridades públicas e representantes políticos - faces enlameadas e indistintas, coloridas de egoismo. Escancara, enfim, as manobras diversionistas, os acordos mafiosos, a corrupção desenfreada e outros tantos cadáveres putrefatos.

O problema, evidentemente, transcende ao mau cheiro. Assim como na Colômbia, o desastre aqui também provoca vítimas. Poucas, é bem verdade. Uma cassação aqui, uma renúncia ali, uma prisão mais adiante e alguns suicídios, esses, é claro, em sentido metafórico, apenas põem termo à vida pública. Afinal, não vivemos mais os tempos de Vargas.

Mas se não morrem brasileiros, morre a cidadania, a esperança, a confiança na justiça e o ânimo para defender soluções políticas baseadas no direito, na ordem e na legalidade. E o que é ainda pior - o término do Estado, o salve-se quem puder geral, a franca desobediência civil, parecem cada vez mais próximos e consequentes.

outubro 08, 2005

As esculturas comestíveis da Bienal

Nesta última edição da Bienal do Mercosul estão expostas algumas curiosas obras: esculturas de chocolate. Isso mesmo, esculturas de cacau, leite e açúcar. Suponho que os organizadores da Bienal tenham reconhecido nessas coisinhas um relevante valor artístico para admiti-las ao acervo de um evento tão importante para a vida cultural da nossa província.
...Talvez o mérito das cremosas e doces miçangas advenha de que lá não estão apenas para serem vistas, mas para serem deglutidas. Essa dupla dimensão sensível, visual e gustativa, constitui o seu charme, a sua explicação, a sua razão de ser. O visitante chega, escolhe a que lhe pareça mais bela ou apetitosa e, em seguida – nhac! - devora-a, sob o olhar beneplácito e encorajador dos expositores. Imagino que os diabéticos encarem apenas a primeira etapa da experiência. As crianças, decerto, saltam diretamente para a segunda.

Seriam esses quitutes obras de arte? E sendo, teriam valor artístico suficiente para figurar no salão de exposições da Bienal que, como se sabe, não é um evento gastronômico, mas uma exposição de artes-visuais. Essas perguntas levam a uma outra questão, bem mais difícil: o que é uma obra de arte? Que conceito turvo e vasto é esse, que acolhe sob si tanto a Pietá de Michelangelo quanto as bombas de chocolate da Bienal? Não consegui elaborar uma boa definição. O melhor que posso dizer a esse respeito é que obra de arte, em geral, é aquela cuja contemplação provoca um estímulo sensorial associado à idéia de beleza.

Cabe aqui uma breve digressão. Camões, a versos tantos dos Lusíadas, referindo-se à divulgação das valerosas memórias portuguesas, promete: “cantando [as] espalharei por toda parte / se a tanto me ajudar engenho e arte”. Nessa passagem, o poeta reconhece implicitamente que arte e engenho são coisas diferentes, ainda que talvez conjuntamente necessárias para produzir a sua obra. A diferença sugerida por Luiz Vaz, penso eu, é de que a arte não pode ser construída segundo uma receita, um método racional, um algoritmo. É algo que, como os amigos, mora no lado esquerdo do peito ou, se você preferir, no hemisfério direito do cérebro. É emoção fixada na matéria. Engenho, por outro lado, é tecnologia, é razão construtiva, é produção material expressa por um conjunto de regras racionais conducentes ao resultado pretendido. Quem consegue descrever o modo como produz não é um artista, é, no máximo, um artesão.

Com esse critério distintivo em mente, voltemos ao caso da Bienal. Por tudo quanto se sabe, as peças de chocolate são fabricadas de forma tradicional, em fôrmas, obedecendo àlguma fórmula do tipo: 1) derreta o chocolate, 2) coloque na fôrma, 3) espere esfriar, etc. Portanto, pelo critério inspirado em Camões, as peças seriam definitivamente reprovadas. Mas alguém poderia argumentar que se tratam de guloseimas - destinadas à boca e não aos olhos. Que são preciosas gemas, excepcionalmente saborosas e aromáticas, indutoras de delírios gustativos. Bem, admitamos então que o mestre-cuca é um artista e produz verdadeiras obras de arte. Mas nem por isso caberia expô-las. Trata-se de arte culinária e não arte-visual. E essa última, afinal de contas, é a espécie artística que a Bienal se propõe a apresentar.

Mais ainda. O reconhecimento do valor de uma obra de arte está naturalmente associado a sua raridade. No caso extremo, ao fato de se tratar de um objeto único, diferente de tudo o mais no universo. Isso é do senso comum e é de fácil entendimento. Basta imaginar a seguinte hipótese. Se a Bienal trouxesse a Gioconda de Da Vinci – a própria tela original, quero dizer – é certo que a fila de ansiosos espectadores nada deveria àquela de Roma, quando da morte do último papa. Já a exibição de uma simples réplica do famoso quadro, por mais perfeita e bem acabada que fosse, redundaria apenas em silêncio, bocejos e moscas. Cada um dos chocolates da Bienal, a rigor, é único mas, como gêmeo perfeito dos demais, é trivial como a irmã bastarda da Gioconda. Essas peças, fabricados em série, carecem de seriedade. Atrairão moscas. Provocarão bocejos. E ocasionais bocados, vá lá.

junho 08, 2005

O sigilo do Delúbio

Assisti a uma síntese da entrevista dada pelo Delúbio Soares. A certa altura, o tesoureiro do PT disse que seu sigilo fiscal e bancário estão a disposição da Justiça, numa aparente demonstração de que nada tem a esconder, que deseja firmemente colaborar para que os fatos sejam devidamente esclarecidos.
...Mas - pensem bem - que, diabos, significa uma declaração dessas? É evidente que o Poder Judiciário, nos limites do devido processo legal, já está autorizado a quebrar o sigilo fiscal e bancário do Delúbio, com ou sem a sua concordância. É evidente, também que a renúncia voluntária ao sigilo perante a Justiça não fará que um juíz qualquer, por mero capricho, resolva dar uma espiadela nas contas do homem. É uma autorização gratuita, vazia. Quer dizer, é uma frase que nada quer dizer.

Agora, em relação ao distinto público ele foi cuidadoso. Abriu mão apenas de seu sigilo fiscal. E não do sigilo bancário. Ora, dadas as circunstâncias, é bem mais provável que sua movimentação bancária - e não sua situação fiscal - revele fatos relacionados com o imbroglio. E, ao contrário da inócua permissão ao Judiciário, essa autorização pública produziria efeitos concretos e imediatos. Qualquer um de nós poderia exigir que o Delúbio exibisse seus extratos bancários, sob pena de admissão pública de que estaria blefando.

abril 26, 2005

Atire a primeira pedra, ai, ai, ai!

Inácio tem uma qualidade invulgar. No quesito "declarações infelizes" ele é imbatível. Mas consegue, por incrível que pareça, superar-se a cada dia. Título em cima de título. Há pouco foi essa história da comunhão em Roma.
...Não se tem notícia de que o Inácio seja um católico fervoroso. Ou, menos do que isso, um católico praticante, ou, ainda menos, um simples católico. A partir daí, é razoável especular que sua recente decisão de tomar a comunhão, parece que na Basílica de São Pedro, tenha tido apenas uma motivação política, nada a ver com autêntica fé religiosa. Alguma coisa menor, mais prática, do tipo "não dói nada e vai pegar bem com o eleitorado". Pode ser, é claro, que a decisão tenha sido sincera, motivada talvez por uma conversão súbita e fulminante ao catolicismo. Afinal de contas, estava no Vaticano, o papa tinha recém falecido e havia uma consternação geral no ar. Não julguemos apressadamente o homem.

Ocorre que, na pressa, não lhe avisaram da necessidade da confissão prévia. Como todos os católicos sabem, os pecados expiam-se pela confissão. E comunhão em pecado - nem pensar - é sacrilégio. Por isso, os católicos naturalmente fazem as duas coisas, necessariamente nessa ordem. Já os políticos hábeis adivinham que é prudente, numa hora dessas, seguir o ritual ao pé da letra, nem que seja para garantir as aparências. Mas Inácio, que talvez não seja católico e certamente não é hábil, foi em frente e comungou direto. Terá sido este um ato pecaminoso? Sabe-se lá. Não o julguemos.

O final da história era previsível. Os jornalistas presentes perceberam a suposta mancada do Inácio e foram em cima. Pediram explicações. Mas aí, é como eu dizia no início, o velho Inácio se superou mais uma vez. Invertendo a ordem natural do rito católico fez uma confissão fora de tempo. E pública, ainda por cima. Declarou, alto e bom som, com todas as letras, que dispensava a confissão, eis que era um homem sem pecado. A turma ficou pasma - "Que será que D. Marisa pensa disso?" - diziam, atordoados. E eu me pergunto: será esse o tal pecado da soberba? Difícil julgar.

Segundo a Santa Madre Igreja, peca-se por pensamentos, obras e palavras. No Vaticano, recentemente, em três momentos distintos, Inácio talvez tenha cometido um pecado de cada uma dessas modalidades, nessa exata ordem. Mas o diabo - Deus que me perdoe! - é que não podemos condenar o homem. Afinal, como disse Cristo, quem não tiver pecado atire a primeira pedra. E sem pecado, já se sabe, só mesmo o Inácio.