dezembro 06, 2005

Deus existe!

Maria não tem nada. Só uma historia. Brasileira, pobre e favelada. Nem branca, nem preta, tem a cor, a cara, o cheiro e o jeito dos miseráveis. Profissão: catadora de lixo. Sua vida pode ser contada em dois tempos. Eis o resumo.
...Nasceu e se criou num canto qualquer do Cantagalo. Ajudou a mãe na cata de lixo desde que se entendeu por gente. Passou fome toda a vida. Não aprendeu a ler. Não conheceu o pai. Aos doze anos, já mais crescida e jeitosa, foi abusada pelo tio – estupro não, seu doutor, isso é coisa de rico, o tio lhe deu uns tapas para parar de chorar e meteu nela. Foi bem assim - mas reclamar para quem? Grávida aos quinze - emprenhou, nem soube como ou de quem, mas a cria lhe morreu ainda no bucho -. Aos dezoito encontrou o Jenival. Gostou dele - Jenival era boa gente. Tinha prumo na vida, tirava o seu sustento de biscates nas praias. Não mexia com droga, não tinha bronca com a polícia. Juntaram os trapos num barraco lá no Esqueleto.

Dois anos e uma filha depois, as coisas pioraram. - Foi aí que o Jenival deu de ficar ruim. Mas ruim por nada, ruim por gosto. Começou a beber. Largou do trabalho. Arranjou outra. Passou a bater nela, e cada vez com maior freqüência. - Batia por qualquer coisinha, as vezes porque implicava com o choro da criança, as vezes porque não gostava da comida, as vezes por nada, só por gosto. Batia prá valer, seu doutor, de deixar a gente estropiada.

Um dia, chegando em casa, o marido lhe pediu dinheiro. Ela deu o que tinha, uma nota de dez. O homem perguntou onde tinha arranjado a grana e ela lhe disse que ganhara no bingo, que às quintas-feiras tinha um daqueles sorteios de graça para chamar o povo. Então Jenival sentenciou: - Pois de agora em diante, tu vai lá todas as quintas. Se tu ganhar, me traz o dinheiro, se tu perder, te arranco o couro a pau. Daí por diante, toda a quinta-feira a surra era certa.

Na noite do crime, Jenivaldo, bêbado e pingando droga, apareceu em casa com uma arma. - Apontou pra minha cabeça e disse: reza vadia, que a tua hora chegou. Depois, sabe lá por que, trocou de idéia. Começou a rir. Deixou o revólver na mesinha e anunciou: A gente faz assim, vou dormir e tu mesmo te mata. Tu tem prazo até amanhã. Se amanhã tu ainda tá viva, daí eu acabo com tua raça. E caiu duro na cama, roncando feito um porco. E eu, doutor, fiquei alí, sem saber o que fazer. Fugir pra onde? Pedir ajuda pra quem?

Maria pegou pena mínima. Já está solta e voltou à sua rotina de fome e lixo. Mas não chora nem se queixa. Apenas não entende a sua vida - procura respostas que ninguém consegue lhe dar. Agora resolveu entrar para uma dessas igrejas evangélicas em que se tropeça a cada esquina. Por força das circunstâncias, está convencida de que Deus existe. Tem que existir! Quando mais não seja, para, algum dia, lhe dar as devidas explicações.

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