Quid est veritas?
"Winston recebeu as edições atrasadas do 'The Times' que deveriam ser alteradas ou, em termos oficiais, 'retificadas'. Por exemplo, constava na edição de 17 de março a íntegra de um discurso, em que o Grande Irmão havia previsto que a situação na frente de batalha ao sul da Índia permaneceria estável mas que em breve seria lançada uma grande ofensiva eurasiana no norte da África. Posteriormente o Alto Comando Eurasiano optara por lançar a ofensiva na Índia e não na África. Era necessário, portanto, reescrever um dos parágrafos do discurso, para que o Grande Irmão houvesse predito as coisas como elas, de fato, ocorreram."
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O fragmento acima foi tirado do livro "1984" de George Orwell e ilustra bem o papel dos autores da biografia de Cesare Battisti contida na Wikipédia.
Explico melhor, por partes.
Primeiro, o livro - quem já o leu, pule o ponto. "1984" é um clássico da literatura, escrito por George Orwell logo após o término da segunda guerra. O autor retrata um mundo em que não há passado nem futuro, tudo é um eterno presente. O governo controla as massas de acordo com as suas conveniências, pela manipulação da história, da informação, dos pensamentos e dos sentimentos. É uma clara crítica aos estados totalitários, em especial à União Soviética daquele momento histórico (o Grande Irmão é uma representação alegórica de Stalin, com bigodão e tudo - o bigode, a bem da verdade não está no livro, mas no filme homônimo).
Quanto à Wikipédia, acho que todos a conhecem. Trata-se de uma enciclopédia "on line", enorme e cada vez maior, disponível a todos os usuários da internet. E - o que é mais interessante - todos podem editá-la. Se V tem uma informação nova ou não concorda com alguma coisa lá escrita, simplesmente inclua, altere ou suprima o que bem desejar. Não é garantido que a sua colaboração será permanentes, mas ela merecerá crédito "infinito enquanto dure" (perdão, Vinicius).
Chegou a vez de Cesare Battisti. Ele é italiano, ex-integrante de uma organização política de extrema esquerda, participou da luta armada contra o regime político instituído na Itália na década de 70. Foi julgado pela Justiça daquele país e condenado à prisão perpétua. Desde 2007 está preso no Brasil e aguarda a decisão do Supremo Tribunal Federal quanto à extradição requerida pela Itália. Como um resumo, isso é quase o suficiente - falta só dizer que se trava uma surda (mas não muda ... nunca muda!) luta entre a esquerda (histórica, utópica, festiva ou arrependida) e a direita (liberal, furiosa, conservadora ou constrangida) sobre qual deveria ser o veredito do STF.
Recentemente, quando a imprensa começou a noticiar o caso, decidi me informar sobre o sujeito. Quem foi ele, o que fez, o que deixou de fazer, etecetera e tal. Como de costume, comecei pesquisando "cesare battisti" no Google. E o Google me levou à biografia do homem na Wikipédia. Lá não diz muita coisa. Mas deu para perceber, desde logo, que o texto não é neutro - os fatos são coloridos pela orientação política do Diderot de plantão. Chega-se lá uma vez e o homem é "do bem", inofensivo e pacífico, um idealista ex-defensor dos oprimidos pelo sistema. Quando se volta - oooppss! - o texto foi reformado. Agora Battisti já é um terrorista sanguinário, um criminoso comum de incomum ferocidade. Chega-se mais uma vez e - o que?! - uma nova versão soterrou as anteriores.
O paralelo entre o caso do "The Times" de Orwell e o da Wikipédia é tão evidente quanto sua diferença: naquele a verdade se submetia apenas ao Grande Irmão, nesta ela é escrava de toda a família. O resto é o resto.