janeiro 24, 2009

Quid est veritas?

"Winston recebeu as edições atrasadas do 'The Times' que deveriam ser alteradas ou, em termos oficiais, 'retificadas'. Por exemplo, constava na edição de 17 de março a íntegra de um discurso, em que o Grande Irmão havia previsto que a situação na frente de batalha ao sul da Índia permaneceria estável mas que em breve seria lançada uma grande ofensiva eurasiana no norte da África. Posteriormente o Alto Comando Eurasiano optara por lançar a ofensiva na Índia e não na África. Era necessário, portanto, reescrever um dos parágrafos do discurso, para que o Grande Irmão houvesse predito as coisas como elas, de fato, ocorreram."
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O fragmento acima foi tirado do livro "1984" de George Orwell e ilustra bem o papel dos autores da biografia de Cesare Battisti contida na Wikipédia.

Explico melhor, por partes.

Primeiro, o livro - quem já o leu, pule o ponto. "1984" é um clássico da literatura, escrito por George Orwell logo após o término da segunda guerra. O autor retrata um mundo em que não há passado nem futuro, tudo é um eterno presente. O governo controla as massas de acordo com as suas conveniências, pela manipulação da história, da informação, dos pensamentos e dos sentimentos. É uma clara crítica aos estados totalitários, em especial à União Soviética daquele momento histórico (o Grande Irmão é uma representação alegórica de Stalin, com bigodão e tudo - o bigode, a bem da verdade não está no livro, mas no filme homônimo).

Quanto à Wikipédia, acho que todos a conhecem. Trata-se de uma enciclopédia "on line", enorme e cada vez maior, disponível a todos os usuários da internet. E - o que é mais interessante - todos podem editá-la. Se V tem uma informação nova ou não concorda com alguma coisa lá escrita, simplesmente inclua, altere ou suprima o que bem desejar. Não é garantido que a sua colaboração será permanentes, mas ela merecerá crédito "infinito enquanto dure" (perdão, Vinicius).

Chegou a vez de Cesare Battisti. Ele é italiano, ex-integrante de uma organização política de extrema esquerda, participou da luta armada contra o regime político instituído na Itália na década de 70. Foi julgado pela Justiça daquele país e condenado à prisão perpétua. Desde 2007 está preso no Brasil e aguarda a decisão do Supremo Tribunal Federal quanto à extradição requerida pela Itália. Como um resumo, isso é quase o suficiente - falta só dizer que se trava uma surda (mas não muda ... nunca muda!) luta entre a esquerda (histórica, utópica, festiva ou arrependida) e a direita (liberal, furiosa, conservadora ou constrangida) sobre qual deveria ser o veredito do STF.

Recentemente, quando a imprensa começou a noticiar o caso, decidi me informar sobre o sujeito. Quem foi ele, o que fez, o que deixou de fazer, etecetera e tal. Como de costume, comecei pesquisando "cesare battisti" no Google. E o Google me levou à biografia do homem na Wikipédia. Lá não diz muita coisa. Mas deu para perceber, desde logo, que o texto não é neutro - os fatos são coloridos pela orientação política do Diderot de plantão. Chega-se lá uma vez e o homem é "do bem", inofensivo e pacífico, um idealista ex-defensor dos oprimidos pelo sistema. Quando se volta - oooppss! - o texto foi reformado. Agora Battisti já é um terrorista sanguinário, um criminoso comum de incomum ferocidade. Chega-se mais uma vez e - o que?! - uma nova versão soterrou as anteriores.

O paralelo entre o caso do "The Times" de Orwell e o da Wikipédia é tão evidente quanto sua diferença: naquele a verdade se submetia apenas ao Grande Irmão, nesta ela é escrava de toda a família. O resto é o resto.

janeiro 21, 2009

Obá! Obama! Obá!

Acompanhei a cerimônia de posse do presidente Obama. Fiquei impressionado - e já não mais me impressiono facilmente - com essa festa toda, com o júbilo extraordinário com que o mundo brindou a chegada do novo senhor dos nossos destinos. A mídia incensou o homem. Até consideraram que a Sra Obama é de uma beleza rara e elegância suprema! No meio dessa emoção toda, lembrei-me, guardadas as devidas proporções, da ascenção e queda de Tancredo Neves. Mas será que toda essa expectativa se justifica? Por um lado, convenhamos: o homem é politicamente correto: negro, cristão, sangue árabe, um pé (não mais que um) nos guetos de Chicago e, afinal de contas, vem para substituir o George. Mas terá ele, além disso, alguma outra virtude? Terá qualidades ainda não reveladas que justifiquem toda essa festiva suposição de que é "the right man for the job"? Sinceramente, não sei. Não se esqueçam de que ele é produto do mesmo sistema eleitoral que concedeu oito longos anos de poder ao desastrado Bush. Sei não. Só posso torcer para que Obama dê o tão certo quanto possível. E que a futura frustração - que alguma sempre há - seja menor do que a estrepitosa esperança de agora.