dezembro 22, 2006

Para refletir

Da caixa postal
Do anarquista russo do século 19, Mikhail Bakunin (1814-1876):

"Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana."

dezembro 18, 2006

Ponto de vista

Da caixa postal

Rumo ao céu!

A aeromoça está dizendo: - “O assento de sua poltrona é flutuante. Em caso de pouso na água ...” - Meu Deus, como é que se pode cogitar de um pouso na água num vôo para Belo Horizonte? Onde o comandante vai encontrar água suficiente para pousar este monstro? A propósito, será que esses assentos flutuantes, tão fofinhos, ajudam a amortecer uma queda no seco?
...
A aeromoça continua: - “Em caso de despressurização da cabine, máscaras de oxigênio cairão automaticamente ... puxe para si a mais próxima e respire normalmente” - “Como respirar normalmente?” - penso. - A cabine sendo despressurizada, as máscaras caindo – provavelmente o avião também - e eu respirando normalmente? Impossível, fora de questão. (No way, miss! - já que a aeromoça ensaia a mesma ladainha, agora em inglês).

Calma, Ricardo. Respira fundo! Olho para a minha direita. Uma freirinha magrela, feiosa, de chapelão branco, mãos postas e sorriso angelical, murmura uma prece. Um quadro perfeito de paz, de tranqüilidade e de fé inabalável nos desígnios do Senhor. A freira deve estar convencida de que se avião despencar ela irá em sentido contrário, direto para o céu. Isso explica o sorriso. Egoísta ... Calma, calma. Não julgueis para não serdes julgado. E depois, o que tiver que ser, será. O destino está escrito nas estrelas ... nove entre dez delas, aliás, preferem uma determinada marca de ... creme, sabonete ou xampu? Creme não! Sabonete ou xampu? Sabonete! ... eu acho.

Nove entre dez ... minhas chances de sobrevivência serão maiores do que nove entre dez? Sei lá. Mas não tenho pressa em descobrir. Por mim o céu pode esperar ... “O céu pode esperar” - isso é um filme? Se é, eu ainda não o vi. Verei, se houver amanhã. Ooops! A freira me viu! Desvio os olhos depressa, antes que ela repare na minha angústia. O que eu menos preciso agora é de alguém com metade de minha idade me chamando de seu filho.

Na outra poltrona está sentado um gordo. Arfando, à beira de um ataque de nervos. Pânico puro. Esse é dos meus. Ao contrário da santa magrela, deve ser um pecador inveterado. “Sua em bicas” - como diria o Irmão Bonifácio, em seu português arcaico ... Não vejo o Bonifácio desde o colegial, faz aí uns quarenta anos. Onde estará o velho Bonifácio? Provavelmente no inferno, o sádico. Deixa prá lá.

O gordo não cabe no seu lugar. Sua aflição! Sua aflição, seus fluidos e adiposas excrescências invadem a minha poltrona e se esparramam ao meu redor - umidades, odores e um cotovelo ameaçador nas minhas costelas. Inicio uma silenciosa disputa com o gordo para dominar o braço da poltrona. Em vão, o gordo é uma montanha absolutamente compacta e, além do mais, não tem para onde recuar. Porca miséria!

O ruido agora fica mais e mais alto. Parece que as turbinas vão explodir. Sinto o avião se arrastar na pista, ganhando velocidade. Cada vez mais depressa... Mas ainda grudado no chão... O tempo está se esgotando. O fim da pista se aproxima! Cada vez mais depressa! Voa, avião, pelo amor de Deus!!! Finalmente, uma última sacudida e lá vamos todos nós, eu, a santa freirinha e o gordo pecador, rumo ao céu!

dezembro 05, 2006

As leis da ditadura

Só muito raramente os regimes ditatoriais se assumem como tal. No mais das vezes, quando ainda a vergonha não se perdeu de todo, procuram vestir uma fantasia democrática. Mas o disfarce nunca é totalmente bem sucedido, afinal "não se pode enganar a todos, todo o tempo". A indumentária nunca lhes cai bem e a máscara, ao contrário, sempre acaba caindo. As contradições do regime ficam bem em contraste - assim como a boca tão grande da vovózinha - quando se lhe examinam as leis. E a razão é clara, não se pode pretender o poder absoluto e, ao mesmo tempo, estabelecer limites legais ao seu exercício. Eis aí, portanto, um critério preciso: examinem as leis de um país e saberão se se trata ou não de um Estado democrático.

Querem exemplos? Vocês lembram da famigerada Lei de Segurança Nacional, o Decreto-Lei 314, de 1967? O que a oposição ao regime de 64 reclamou dessa lei - e com inteira razão, diga-se de passagem! O quanto os democratas de então repudiaram-na! E se não o fizeram de forma mais incisiva, certamente foi por medo de incorrerem eles próprios nas sanções da dita cuja. Vou transcrever três dos seus artigos. Verdadeiros primores. Ei-los:
...Art. 14. Divulgar, por qualquer meio de publicidade, notícias falsas, tendenciosas ou deturpadas, de modo a pôr em perigo o bom nome, a autoridade o crédito ou o prestígio do Brasil: Pena - detenção, de 6 meses a 2 anos.
...
Art. 21. Tentar subverter a ordem ou estrutura político-social vigente no Brasil, com o fim de estabelecer ditadura de classe, de partido político, de grupo ou de indivíduo: Pena - reclusão, de 4 a 12 anos.
...
Art. 38. Constitui, também, propaganda subversiva, quando importe em ameaça ou atentado à segurança nacional: I - a publicação ou divulgação de notícias ou declaração; ... Pena - detenção de 6 meses a 2 anos.
...

Que tal? "Divulgar notícias tendenciosas de modo a por em perigo o bom nome do Brasil", "tentar subverter a ordem político-social vigente", "publicar ou divulgar notícias ou declarações que importem em ameaça à segurança nacional"! Sem nem mesmo adentrar o mérito ético dos preceitos em si, reparem apenas na imprecisão com que os delitos são tipificados. Imaginem o quanto de subjetividade pode ser empregado ao interpretar esses tipos penais. Imaginem o nível de arbitrariedade concedido ao julgador militar!

Pois bem. Resolvi aplicar esse meu teste de democracia à "Isla de Fidel". Procurei, nas leis cubanas, um paralelo aos dispositivos acima citados. Encontrei-os. Estão no artigo 103 do Código Penal:

ARTÍCULO 103.
1. Incurre en sanción de privación de libertad de uno a ocho años el que:
a) incite contra el orden social, la solidaridad internacional o el Estado socialista, mediante la propaganda oral o escrita o en cualquier otra forma;
b) confeccione, distribuya o posea propaganda del carácter mencionado en el inciso anterior.
2. El que difunda noticias falsas o predicciones maliciosas tendentes a causar alarma o descontento en la población, o desorden público, incurre en sanción de privación de libertad de uno a cuatro años.
3. Si, para la ejecución de los hechos previstos en los apartados anteriores, se utilizan medios de difusión masiva, la sanción es de privación de libertad de diez a quince años.

Notável não é? "Incitar contra o Estado socialista" não é o mesmo que "incitar contra Cuba", é simplesmente assumir uma posição contrária a uma abstração - o tal Estado socialista! Possuir material que possa ser usado para veicular idéias contra o socialismo, a rigor, já pode ser considerado crime. "Difundir predições maliciosas (apenas) tendentes a causar alarma ou descontentamento na população". Que prato cheio para um juíz parcial, a serviço do regime! Nesse nível, bem que podiam botar também "corromper a juventude", numa homenagem póstuma a Sócrates.

Tudo bem pesado, conclui-se que se o regime militar brasileiro de 64 foi uma ditadura (e foi!), então Cuba igualmente o é (e é!). O que se pode, ainda, é comparar o grau de abertura desses regimes, o quanto se preservou dos direitos democráticos num e noutro caso.

Mas isso já é outra história.

Deus está entre nós! Por enquanto.

Fidel Castro Ruz, está às portas da morte. Nesse momento de consternação, os seus seguidores esquecem a dimensão humana "del Comandante en Jefe" e o proclamam como Jesus dos cristãos, Mamomé do Islã ou o Super-Homem das revistas em quadrinhos. Supondo que a emotiva atitude seja sincera e logicamente consistente, cabe indagar até que ponto esse radical culto à personalidade, esse reconhecimento da supremacia do indíviduo sobre a sociedade não abala os próprios alicerces do socialismo marxista. A comuna, subitamente (e mais uma vez) reinventa Deus?

A propósito da deificação de Fidel, vejam adiante o que está rolando na web.
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Fidel, la humanidad te necesita

(Alina M Lotti - 29 de noviembre - nacionales@trabaja.cip.cu)

Fidel es el hombre más grande que ha dado la humanidad, el más sabio, el más íntegro, el más entero. Te necesitamos, así como una orden si querés. Necesitamos que nos hables, que nos digas, que nos escribas, que nos sigas mandando mensajes, siempre con una enseñanza, dijo la argentina Hebe de Bonafini, de las Madres de la Plaza de Mayo, durante la primera jornada de El Coloquio Internacional Memoria y futuro: Cuba y Fidel, que durante hoy y mañana tiene lugar en el Palacio de Convenciones de esta capital.

La mirada de Fidel

(Yuris Nórido - 27 de noviembre - cultura@trabaja.cip.cu)

Guayasamín, que fue un pintor de esencias, estuvo un día frente al reto tremendísimo de hacer el retrato de Fidel. Guayasamín sabía que toda la magia de sus manos milagrosas, de sus manos hacedoras de mundos nuevos, que toda esa magia era insuficiente para atrapar en un lienzo tanta fuerza hecha hombre, porque Fidel Castro es mucho más que una criatura de carne y hueso, Fidel es un símbolo, es una verdad, y todo el mundo sabe lo difícil que es representar una verdad, aun para un genio.

Fidel sí estuvo

(Francisco Rodríguez Cruz - 4 de diciembre - nacional@trabaja.cip.cu)

El Comandante en Jefe estuvo en la Plaza de la Revolución este sábado, aunque no físicamente, sí de muchas maneras. "Fidel ausente, Fidel no asiste, Fidel no fue", repetían publicaciones extranjeras apegadas a una objetividad pedestre ... Sin embargo, como émulo contemporáneo del mítico guerrero Mackandal en El Reino de este Mundo, la presencia de Fidel era perceptible. Estaba en el amanecer sobre las armas, en la emotiva solemnidad del toque de silencio, en los acordes del Himno Nacional de la banda de música gigante, y en el retumbar de cada una de las 21 salvas de artillería.
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Junto con los tradicionales mensajes de firmeza y combatividad, esta vez eran incontables los de felicitación, cariño y deseos de salud, que iban en decenas y decenas de pancartas para Fidel, con una ternura que solamente nos permitimos con nuestros padres y abuelos, y como especie de revelación de una moderna Trinidad comunista, entre el pueblo, el líder y el espíritu revolucionario.
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Más allá de los tiempos

(Yuris Nórido - 4 de diciembre - cultura@trabaja.cip.cu)

La obra viva de Fidel es tan inmensa, tan contundente, que quizás lleguemos a pasar por alto su extraordinaria dimensión como hombre de ideas. Fidel es el principal artífice de una de las más radicales transformaciones de la historia contemporánea: la Revolución Cubana. Fidel cambió el mapa político de nuestra América. Demostró la pertinencia de luchar por la utopía.
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A estas alturas, el pensamiento político, económico, filosófico de Fidel Castro precisa de que cada vez más investigadores, académicos, políticos y politólogos, historiadores, hombres de acción, contribuyan a contextualizar; a ubicar fuentes y referentes; a dilucidar aportes concretos; a establecer progresiones; a organizar en cuerpo único la copiosa bibliografía, las reflexiones desperdigadas en discursos, conferencias, entrevistas y hasta en conversaciones informales; y, sobre todo, a trazar estrategias concretas de consolidación, a explorar caminos posibles, acordes con las realidades y desafíos de nuestros pueblos en los tiempos que corren.

Fidel ha ido estructurando, a lo largo de su vida intensa y abnegada, un pensamiento lúcido y diáfano, sustentado fundamentalmente en el extraordinario acervo martiano y en la filosofía marxista y leninista, pero que también se nutre del discurso independentista y nacionalista de nuestros más prominentes pensadores de los siglos XIX y XX.

No es un pensamiento estático, pues una de sus constantes es el diálogo fructífero con el momento histórico, con las peculiaridades de los pueblos y los hombres, con las más diversas corrientes filosóficas.

Es un ideario que ha estado, desde el principio, vinculado a la práctica: Fidel Castro no ha sido nunca un teórico de cátedra y laboratorio: es sobre todo un hacedor ...

Es imprescindible entonces acercarse a ese ideario partiendo del convencimiento de que la obra de todos los hombres, aun la de los más grandes, siempre estará incompleta, siempre puede ser considerada punto de partida.

Con sus profundos análisis de la sociedad contemporánea, con sus reflexiones sobre los grandes problemas de la humanidad, Fidel ha despejado (y sigue despejando) algunas de las claves para entender mejor los desafíos del siglo XXI, para Cuba, América Latina y el mundo. Ha desmontado, pieza por pieza, muchos mitos que se tenían por verdades irrebatibles. Ha perfilado instrumentos, ha definido estrategias, ha concebido un proyecto sostenible de sociedad.

A las nuevas generaciones les corresponde el reto de aprovechar, con inteligencia y creatividad, ese extraordinario legado.


Cambada de puxa-sacos!

setembro 24, 2006

O dossiê Cuiabá

Não há muito mais o que comentar sobre o último escândalo patrociando pelo PT. Escândalo, a propósito, não é um substantivo adequado, já que estamos rigorosamente acostumados com essas baixarias.
...
É a história de sempre. Primeiro, as autoridades alegam que não sabiam de nada. Depois, confrontadas com fatos subsequentes, se desdizem, admitem que sabiam um pouquinho, o mínimo suficiente para não incorrer em descarada contradição ou em ridículo extremo. Logo a seguir, alguém dos escalões intermediários confessa a autoria, mas alega que agiu por conta própria, inocenta os seus superiores, pede desculpas e é gentilmente afastado. Finalmente, os parceiros do poder, os cúmplices por omissão e beneficiários indiretos da velhacaria, comparecem publicamente para exigir uma apuração rigorosa, "duela a quién duela" (a expressão é do futuro senador Collor, de quem quase dá para sentir saudade).

A única originalidade está no prenome dos protagonistas. Vocês já notaram quantos nomes estranhos aparecem envolvidos em negociatas republicanas? Não seria de se esperar, estatisticamente, tantas ocorrências. Só nesse caso recente, pelo menos mais três nomes curiosos: Freud, Gedemar e Valdebran. Perdoem-me os eventuais xarás, mas esses nomes, por si só e antes de tudo, já parecem suspeitos. E já que o presidente e as instâncias oficiais do PT reconhecem, mais uma vez, que nada sabiam, que foram traídos por militantes desonestos, gostaria de sugerir um simples controle que talvez contribua para diminuir esse tipo de problema. Seria assim, cada novo pedido de filiação seria examinado em uma instância administrativa do partido para decidir se o nome do candidato é ou não aceitável.

Imaginem a cena:

- Tem aqui mais um candidato, Gedemar Assunção. Que pensam?
- Hum ... sei não. Assunção, tudo bem, mas Gedemar? Melhor cortar.
- E tem esse outro, Valdebran Farias.
- Valdebran? Corta, corta.
- E esse aqui, José dos Santos?
- Parece bom. Qual é o nome da mãe?
- Jovaldete ...
- Pelo amor de Deus, corta!!!

agosto 30, 2006

A tragédia de Plutão

Notícia recente dá conta de que a União Astronômica Internacional, mediante resolução desta última quinta-feira, determinou que Plutão não é um planeta, mas é, sim, um "planeta anão". Aproveito para explicar que, segundo a mesma notícia, são três as categorias planetárias, em ordem hierárquica decrescente: "planeta", "planeta anão" e "pequeno corpo do sistema solar".
...A impressão que fica da notícia é de que essa tal União Astronômica, liminarmente, sem nem mesmo ouvir a defesa do acusado, rebaixou Plutão de posto. Sem nenhuma cerimônia, arrancaram-lhe o status cósmico, proibiram-no de sentar à mesa com os seus oito ex-irmãos e mandaram-no procurar a sua turma. Há quem diga, inclusive, que para impedir a corrupção juvenil, serão queimados os livros escolares que contrariam a verdade oficial. Não se sabe ainda quais serão as sanções aplicadas a Mr. Clyde Tombaugh, o astrônomo que em 1930 fotografou Plutão pela primeira vez, atribuindo indevidamente o status de planeta ao anão recém descoberto.

Devido a imensa distância, imagino que o desafortunado Plutão ainda não tenha sido oficialmente notificado da decisão dos terráqueos. Daqui há alguns anos, quando perceber que caiu em desgraça, bem pode ser que o infeliz ex-planeta murche ainda mais, de humilhação e vergonha. Correrá então até o risco, conforme o grau desse derradeiro apequenamento psicológico, de vir a ser enquadrado - oh, suprema ignomínia! - na terceira e úiltima categoria, um mero "pequeno corpo do sistema solar", um verdadeiro pária cósmico.

Mas por enquanto não sabe. Permanece absolutamente impassível. Sua forma e volume são os mesmos. Nenhuma alteração, milimétrica que seja, em sua órbita. Nenhuma variação de temperatura. Nem rubor nem palidez modificam a coloração de sua face.

Por enquanto, Plutão é Plutão, é apenas Plutão.

agosto 08, 2006

Roleta russa em Cachoeirinha

Terça-feira passada Zero Hora noticiou um crime ocorrido em Cachoeirinha, uma cidade próxima daqui de Porto Alegre.

Foi assim. O sujeito invadiu uma residência no fim da madrugada. Rendeu toda a família: o dono da casa, sua mulher e o filho único do casal. O bandido então deu uma busca pela casa, pegou o dinheiro que havia, os celulares e o que mais encontrou de valor. As três vítimas, amarradas, assistiram tudo passivamente, sem poder esboçar qualquer reação.

O assaltante já tinha ganho o seu dia. O seu desjejum diário de droga estava garantido. Tivesse se mandado e tudo estaria acabado. Nem mesmo notícia daria, só um assunto para comentar com os vizinhos e o prejuízo de alguns trocados. Só mais uma surrada reedição de um corriqueiro drama urbano.

Mas aí, por cochilo divino ou arte do diabo, já de saída, no último momento o assaltante teve uma idéia que lhe pareceu divertida. Algo gratuito, "just for fun". Voltou e perguntou ao homem, se ele gostava mesmo do filho. Informado que sim, que o pai o amava, mandou que o garoto se ajoelhasse a sua frente. Botou uma bala no revólver, rolou o tambor, apontou solenemente para a cabeça do jovem, fez uma pausa para ver a reação do pai e, finalmente, puxou o gatilho. Para azar do filho, dos seus pais, do próprio assassino e de nós todos que vivemos nesta sociedade patética, a arma disparou. O assaltante, assustado e, enfim, farto, fugiu. Dele não mais se teve notícias.

Foi assim. Uma tragédia em um ato. Um tiro. Um rapaz morto. Pai e mãe mortos em vida. E milhares de leitores de Zero Hora nauseados após o café da manhã.

Eu pretendia concluir esse texto com uma reflexão. Iria comentar a minha imensa tristeza com o sofrimento dessa família. Iria falar da minha permanente sensação de angústia ao pensar que o terror que se abateu sobre esses pais não dorme, está também a nossa espreita. Mas não é preciso. Vocês são pais. Vocês já sabem.

junho 07, 2006

Prefácios

Alguém ainda lê prefácios? Eu não mais, confesso. Com o tempo e a idade, tornei-me avesso aos prefácios. Estou convencido de que sua leitura exige tenacidade e paciência acima das minhas forças. Considero-os insidiosos, como uma selva tropical, cheios de terríveis perigos a espreita do leitor incauto - pradarias desertas de significado, cachoeiras de palavras obscuras, vocábulos soltos ao vento. Nessa desolada travessia, V pode encantar-se com bichos-preguiça e se deixar ficar pelo caminho. Pode topar com peçonhentas tsé-tsé verbais e tombar vítima da moléstia do sono prematuro. E tudo isso para chegar, finalmente, ao marco zero da empreitada - o capítulo primeiro - e constatar que a tarefa propriamente dita não começou, há todo um livro ainda para ler!
...A propósito de prefácios, há uma lenda moura sobre a destruição da famosa biblioteca de Alexandria. Não deve ser verdade, mas merece ser contada. Em 640 DC, os árabes tomaram Alexandria. Tendo tido notícia de que na cidade havia "uma grande livraria, contendo todo o conhecimento do mundo", o comandante do exército invasor pediu instruções sobre como proceder a Omar, o Califa. Omar ordenou a queima dos livros sob o argumento de que "ou eles contradizem o Corão, caso em que são heréticos, ou eles concordam com o Corão, caso em que são supérfluos". Até aí vai a história (como contada por um bispo cristão, suspeito de tê-la inventado). Agora vem a lenda a que eu me referi antes. O Califa, antes de proferir o veredito, consultou um seu Vizir, que sugeriu a queima dos livros ou a seguinte alternativa: - "Determine que nossos escribas produzam extensos prefácios e que esses sejam antepostos às obras infiéis. Elas, assim soterradas, não oferecerão perigo aos crentes". O Califa optou pela solução que lhe pareceu mais direta: mandou tocar fogo na biblioteca. Alá seja louvado!

Dito isso, peço licença para, ao reverso de Vargas, deixar a história para reentrar na vida.

Acho que minha aversão aos prefácios tem a ver com o fato de que estou ficando velho, a vida está cada vez mais apressada e não li tudo o que deveria ter lido na juventude. Há imensas lacunas culturais a preencher. E o tempo está cada vez mais escasso. Por exemplo, esses dias me dei conta de que não li "Em busca do tempo perdido", de Proust, segundo dizem, uma obra magnífica, um verdadeiros marco da literatura moderna. Saí a campo em busca do livro e descobri, desanimado - pasmem os incultos - que são sete volumes. Onde, meu Deus, vou arranjar tempo para ir em busca do tempo que Proust perdeu?

O pessoal da Saraiva teve uma boa idéia. Estão editando as obras completas de Proust, em forma de revistas em quadrinhos. Essa talvez seja uma solução para o meu problema - se as letras forem graúdas e as gravuras coloridas.

maio 17, 2006

Hay que endurecer!

Entre tantas façanhas do Guevara, há uma literária, especialmente famosa. Trata-se da criação da frase - "Hay que endurecerse pero sin perder la ternura". A frase foi proclamada e entendida num contexto político - como uma receita do necessário equilíbrio pessoal que deve ter um líder revolucionário. Penso, todavia, que possa ter sido criada em circunstâncias bem diversas. Imagino a cena: Sierra Maestra, agosto de 1958. O jovem Che está deitado com Pepita, uma ardente e apaixonada revolucionária. Há um certo mal estar, um clima de fim de festa. O sexo não rolou, problemas com a vara do Che. Guevara, pensativo, imagina se não terá faltado ternura nas preliminares. Daí, num repente, o insight! Surgira o mote que hoje emporcalha muros e enfeita t-shirts pelo mundo a fora.
...Mas essas são preliminares, meu assunto é outro. Quero comentar rapidamente sobre a recente onda de violência em São Paulo, patrocinada pelos criminosos do PCC. Dezenas de policais foram executados a sangue-frio. Ônibus queimados. Paralisia no transporte público. Lojas fechadas. Toque de recolher de fato. Derrota, mais uma, da sociedade. Um sinal, mais um, do fim desses tempos brasileiros. Definitivamente "a coisa aqui tá preta" - como diria o Chico.

Mas "pau que bate em Chico, bate em Francisco", os representantes da legalidade decidiram ir a forra. Nesta quarta-feira, os jornais noticiam que a polícia caiu de pau na bandidagem e em uma única noite foram mortos outras tantas dezenas de criminosos, reequilibrando as contas. Os policiais aventam também a hipótese de ressucitar uma simpática instituição brasileira, dos tempos da Redentora, os Esquadrões da Morte. Simpática, aqui, infelizmente não tem qualquer conotação de ironia. É o salve-se quem puder geral. É o "nós ou eles"!

A frase do Guevara, como recomendação às nossas autoridades policiais, poderia ser, quem sabe, alterada para "Hay que endurecer pero sin volver a la tortura". Eu, cínico e direto como sou e já sem o vigor dos melhores anos, me contento com um simples "endurecerse". Ponto.

abril 07, 2006

A técnica do ABC

Cheguei à velhice. Definitivamente. É inexorável, eu sei - os que, como eu, não morreram antes do tempo, aportam necessariamente a essa última etapa da vida e têm de enfrentar as mazelas próprias da idade provecta. Essa perspectiva existencial, vista num contexto amplo, não chega a me tirar o sono. Sono, aliás, não seria problema nesse caso, já que nós, idosos, dele precisamos menos. Entretanto há uma conseqüência da velhice que me atemoriza, trata-se da minha progressiva - e vertiginosa, devo acrescentar - perda de memória. Os lapsos tem sido cada vez mais freqüentes, as lacunas cada vez mais profundas e o que é cruelmente irônico, não consigo esquecer que estou ficando esquecido.
Continua ...O embotamento da memória me parece especialmente grave porque estou convencido de que a minha identidade e minha própria auto - consciência dependem da companhia do meu passado. Só a lembrança dos meus prazeres e dores, dos meus amores e ódios e das minhas certezas e dúvidas me fazem ser o que sou. Mais ainda, se algo sobreviver à minha morte, só poderá ser a memória (e não uma "alma", essa coisa indefinível e estranha que nada tem a ver comigo!). No mais, é doloroso pensar que toda a minha bagagem afetiva e intelectual, acumulada a custa de tanto sacrifício, está sendo devolvida vagarosa e melancolicamente ao limbo da inexistência.

Mas chega de filosofia. Voltemos ao problema prático.

Tenho tentado de tudo para retardar o desenlace fatal. Palavras - cruzadas, gingobiloba, neurolinguística, etc. Aderi, inclusive, a prática de um exercício para reforçar a minha minguante e escorregadia função cerebral. A ginástica é assim: estabeleço uma categoria qualquer de itens, digamos, os meus sobrinhos por exemplo, e tento me lembrar do nome de toda a série, um por um. O diabo é que esse exercício, além de obsessivo - sempre há mais alguma categoria a me desafiar - é terrivelmente frustrante, pois raramente chego ao fim da seqüência. Ontem mesmo eu havia me proposto a lembrar do nome dos presidentes da FIFA, em ordem reversa. Passei facilmente pelo Blatter (de quem, por sinal, não lembro mais o primeiro nome) e, acreditem!, empaquei no Havelange. Justo no Havelange, um conterrâneo meu, famosíssimo, cinqüenta anos na mídia mundial. O curioso é que eu lembrava perfeitamente da fisionomia do sujeito, mas o nome permanecia encalhado em algum neurônio qualquer. Nesses casos eu apelo para um último recurso, a técnica do ABC. É assim: pego o A, a primeira letra do alfabeto, e tento ver se o nome procurado começa com essa inicial. Se não funcionar, passo para o B, depois para a letra seguinte e assim por diante. Se chegar ao Z, sem resultado, fica o consolo de que, pelo menos, não esqueci do alfabeto.

fevereiro 02, 2006

Os peixes do Danúbio

Ricardo
Aposto que você não sabia que Beethoven residiu durante toda a sua vida em Viena, na Áustria e que era um habitual consumidor de pescados do Danúbio, capturados nos arredores da cidade. Dizem que em virtude da extrema poluição naquele trecho do rio, o genial compositor acabou morrendo, vítima de um lento e progressivo envenenamento por chumbo.
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