Nesses dias, um certo cardeal, entrevistado em Roma sobre suas possibilidades de vir a ser eleito papa, disse que a questão não poderia ser respondida ou examinada à luz da razão dos homens porque a eleição de um papa não é uma decisão humana, mas um ato direto do próprio Espírito Santo. A História nos ensina de que muitos dos papas escolhidos foram tudo, menos santos. A escolha nem sempre tem sido acertada, o que parece não indicar uma intervenção divina direta. Pode-se argumentar que esses erros históricos não excluem a possibilidade do milagre, que as decisões sempre foram perfeitas, que nosso juízo não alcança as razões da divindade, em suma, que Deus escreve direito por linhas tortas.
...Em certo sentido e conforme a sua fé, o cardeal tem razão. Deus estará presente porque está em toda parte, é onipresente. E é claro também que o resultado já deve estar contido em seus planos para o Universo. Mas não foi essa, parece-me, a conotação que o cardeal quis dar em sua resposta. Até porque, se o fosse, rigorosamente nada acrescentaria. Nesse nível de abstração ele poderia também sustentar que lhe seria impossível prever o prato que escolheria no próximo jantar. O que, de fato, o cardeal quis dar a entender é que um verdadeiro e sublime milagre estaria para aconteceer, que Deus, em si mesmo, em majestosa pessoa, ou, pelo menos, em uma de suas três pessoas, desceria dos céus e entregaria o cajado de Pedro ao escolhido. Assim como se a eleição papal merecesse do Criador uma atenção especial, diferente da que Ele dedica, por exemplo, ao movimento das marés.
A declaração de Sua Eminência merece uma crítica em dois tempos. Em primeiro lugar, se ele realmente acredita no que disse, revela conceber Deus como uma entidade humana, menor, feito à nossa semelhança e preocupado com questiúnculas - não se tome aqui em sentido depreciativo, mas meramente diminutivo - de que se ocupam os habitantes desse minúsculo planeta.
Ou então, o prelado, consciente de que a eleição é um fato humano como todos os demais, realizado por homens possivelmente bem preparados, mas também humanos como todos os demais, está jogando para torcida. Invoca um milagre que, em seu íntimo, não acredita.
Melhor seria que tivesse dado uma outra resposta. Apenas um sincero e honesto "não sei".
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