abril 26, 2005

Atire a primeira pedra, ai, ai, ai!

Inácio tem uma qualidade invulgar. No quesito "declarações infelizes" ele é imbatível. Mas consegue, por incrível que pareça, superar-se a cada dia. Título em cima de título. Há pouco foi essa história da comunhão em Roma.
...Não se tem notícia de que o Inácio seja um católico fervoroso. Ou, menos do que isso, um católico praticante, ou, ainda menos, um simples católico. A partir daí, é razoável especular que sua recente decisão de tomar a comunhão, parece que na Basílica de São Pedro, tenha tido apenas uma motivação política, nada a ver com autêntica fé religiosa. Alguma coisa menor, mais prática, do tipo "não dói nada e vai pegar bem com o eleitorado". Pode ser, é claro, que a decisão tenha sido sincera, motivada talvez por uma conversão súbita e fulminante ao catolicismo. Afinal de contas, estava no Vaticano, o papa tinha recém falecido e havia uma consternação geral no ar. Não julguemos apressadamente o homem.

Ocorre que, na pressa, não lhe avisaram da necessidade da confissão prévia. Como todos os católicos sabem, os pecados expiam-se pela confissão. E comunhão em pecado - nem pensar - é sacrilégio. Por isso, os católicos naturalmente fazem as duas coisas, necessariamente nessa ordem. Já os políticos hábeis adivinham que é prudente, numa hora dessas, seguir o ritual ao pé da letra, nem que seja para garantir as aparências. Mas Inácio, que talvez não seja católico e certamente não é hábil, foi em frente e comungou direto. Terá sido este um ato pecaminoso? Sabe-se lá. Não o julguemos.

O final da história era previsível. Os jornalistas presentes perceberam a suposta mancada do Inácio e foram em cima. Pediram explicações. Mas aí, é como eu dizia no início, o velho Inácio se superou mais uma vez. Invertendo a ordem natural do rito católico fez uma confissão fora de tempo. E pública, ainda por cima. Declarou, alto e bom som, com todas as letras, que dispensava a confissão, eis que era um homem sem pecado. A turma ficou pasma - "Que será que D. Marisa pensa disso?" - diziam, atordoados. E eu me pergunto: será esse o tal pecado da soberba? Difícil julgar.

Segundo a Santa Madre Igreja, peca-se por pensamentos, obras e palavras. No Vaticano, recentemente, em três momentos distintos, Inácio talvez tenha cometido um pecado de cada uma dessas modalidades, nessa exata ordem. Mas o diabo - Deus que me perdoe! - é que não podemos condenar o homem. Afinal, como disse Cristo, quem não tiver pecado atire a primeira pedra. E sem pecado, já se sabe, só mesmo o Inácio.

abril 19, 2005

Declarações de um papável.

Nesses dias, um certo cardeal, entrevistado em Roma sobre suas possibilidades de vir a ser eleito papa, disse que a questão não poderia ser respondida ou examinada à luz da razão dos homens porque a eleição de um papa não é uma decisão humana, mas um ato direto do próprio Espírito Santo. A História nos ensina de que muitos dos papas escolhidos foram tudo, menos santos. A escolha nem sempre tem sido acertada, o que parece não indicar uma intervenção divina direta. Pode-se argumentar que esses erros históricos não excluem a possibilidade do milagre, que as decisões sempre foram perfeitas, que nosso juízo não alcança as razões da divindade, em suma, que Deus escreve direito por linhas tortas.
...Em certo sentido e conforme a sua fé, o cardeal tem razão. Deus estará presente porque está em toda parte, é onipresente. E é claro também que o resultado já deve estar contido em seus planos para o Universo. Mas não foi essa, parece-me, a conotação que o cardeal quis dar em sua resposta. Até porque, se o fosse, rigorosamente nada acrescentaria. Nesse nível de abstração ele poderia também sustentar que lhe seria impossível prever o prato que escolheria no próximo jantar. O que, de fato, o cardeal quis dar a entender é que um verdadeiro e sublime milagre estaria para aconteceer, que Deus, em si mesmo, em majestosa pessoa, ou, pelo menos, em uma de suas três pessoas, desceria dos céus e entregaria o cajado de Pedro ao escolhido. Assim como se a eleição papal merecesse do Criador uma atenção especial, diferente da que Ele dedica, por exemplo, ao movimento das marés.

A declaração de Sua Eminência merece uma crítica em dois tempos. Em primeiro lugar, se ele realmente acredita no que disse, revela conceber Deus como uma entidade humana, menor, feito à nossa semelhança e preocupado com questiúnculas - não se tome aqui em sentido depreciativo, mas meramente diminutivo - de que se ocupam os habitantes desse minúsculo planeta.

Ou então, o prelado, consciente de que a eleição é um fato humano como todos os demais, realizado por homens possivelmente bem preparados, mas também humanos como todos os demais, está jogando para torcida. Invoca um milagre que, em seu íntimo, não acredita.

Melhor seria que tivesse dado uma outra resposta. Apenas um sincero e honesto "não sei".