setembro 24, 2006

O dossiê Cuiabá

Não há muito mais o que comentar sobre o último escândalo patrociando pelo PT. Escândalo, a propósito, não é um substantivo adequado, já que estamos rigorosamente acostumados com essas baixarias.
...
É a história de sempre. Primeiro, as autoridades alegam que não sabiam de nada. Depois, confrontadas com fatos subsequentes, se desdizem, admitem que sabiam um pouquinho, o mínimo suficiente para não incorrer em descarada contradição ou em ridículo extremo. Logo a seguir, alguém dos escalões intermediários confessa a autoria, mas alega que agiu por conta própria, inocenta os seus superiores, pede desculpas e é gentilmente afastado. Finalmente, os parceiros do poder, os cúmplices por omissão e beneficiários indiretos da velhacaria, comparecem publicamente para exigir uma apuração rigorosa, "duela a quién duela" (a expressão é do futuro senador Collor, de quem quase dá para sentir saudade).

A única originalidade está no prenome dos protagonistas. Vocês já notaram quantos nomes estranhos aparecem envolvidos em negociatas republicanas? Não seria de se esperar, estatisticamente, tantas ocorrências. Só nesse caso recente, pelo menos mais três nomes curiosos: Freud, Gedemar e Valdebran. Perdoem-me os eventuais xarás, mas esses nomes, por si só e antes de tudo, já parecem suspeitos. E já que o presidente e as instâncias oficiais do PT reconhecem, mais uma vez, que nada sabiam, que foram traídos por militantes desonestos, gostaria de sugerir um simples controle que talvez contribua para diminuir esse tipo de problema. Seria assim, cada novo pedido de filiação seria examinado em uma instância administrativa do partido para decidir se o nome do candidato é ou não aceitável.

Imaginem a cena:

- Tem aqui mais um candidato, Gedemar Assunção. Que pensam?
- Hum ... sei não. Assunção, tudo bem, mas Gedemar? Melhor cortar.
- E tem esse outro, Valdebran Farias.
- Valdebran? Corta, corta.
- E esse aqui, José dos Santos?
- Parece bom. Qual é o nome da mãe?
- Jovaldete ...
- Pelo amor de Deus, corta!!!

agosto 30, 2006

A tragédia de Plutão

Notícia recente dá conta de que a União Astronômica Internacional, mediante resolução desta última quinta-feira, determinou que Plutão não é um planeta, mas é, sim, um "planeta anão". Aproveito para explicar que, segundo a mesma notícia, são três as categorias planetárias, em ordem hierárquica decrescente: "planeta", "planeta anão" e "pequeno corpo do sistema solar".
...A impressão que fica da notícia é de que essa tal União Astronômica, liminarmente, sem nem mesmo ouvir a defesa do acusado, rebaixou Plutão de posto. Sem nenhuma cerimônia, arrancaram-lhe o status cósmico, proibiram-no de sentar à mesa com os seus oito ex-irmãos e mandaram-no procurar a sua turma. Há quem diga, inclusive, que para impedir a corrupção juvenil, serão queimados os livros escolares que contrariam a verdade oficial. Não se sabe ainda quais serão as sanções aplicadas a Mr. Clyde Tombaugh, o astrônomo que em 1930 fotografou Plutão pela primeira vez, atribuindo indevidamente o status de planeta ao anão recém descoberto.

Devido a imensa distância, imagino que o desafortunado Plutão ainda não tenha sido oficialmente notificado da decisão dos terráqueos. Daqui há alguns anos, quando perceber que caiu em desgraça, bem pode ser que o infeliz ex-planeta murche ainda mais, de humilhação e vergonha. Correrá então até o risco, conforme o grau desse derradeiro apequenamento psicológico, de vir a ser enquadrado - oh, suprema ignomínia! - na terceira e úiltima categoria, um mero "pequeno corpo do sistema solar", um verdadeiro pária cósmico.

Mas por enquanto não sabe. Permanece absolutamente impassível. Sua forma e volume são os mesmos. Nenhuma alteração, milimétrica que seja, em sua órbita. Nenhuma variação de temperatura. Nem rubor nem palidez modificam a coloração de sua face.

Por enquanto, Plutão é Plutão, é apenas Plutão.

agosto 08, 2006

Roleta russa em Cachoeirinha

Terça-feira passada Zero Hora noticiou um crime ocorrido em Cachoeirinha, uma cidade próxima daqui de Porto Alegre.

Foi assim. O sujeito invadiu uma residência no fim da madrugada. Rendeu toda a família: o dono da casa, sua mulher e o filho único do casal. O bandido então deu uma busca pela casa, pegou o dinheiro que havia, os celulares e o que mais encontrou de valor. As três vítimas, amarradas, assistiram tudo passivamente, sem poder esboçar qualquer reação.

O assaltante já tinha ganho o seu dia. O seu desjejum diário de droga estava garantido. Tivesse se mandado e tudo estaria acabado. Nem mesmo notícia daria, só um assunto para comentar com os vizinhos e o prejuízo de alguns trocados. Só mais uma surrada reedição de um corriqueiro drama urbano.

Mas aí, por cochilo divino ou arte do diabo, já de saída, no último momento o assaltante teve uma idéia que lhe pareceu divertida. Algo gratuito, "just for fun". Voltou e perguntou ao homem, se ele gostava mesmo do filho. Informado que sim, que o pai o amava, mandou que o garoto se ajoelhasse a sua frente. Botou uma bala no revólver, rolou o tambor, apontou solenemente para a cabeça do jovem, fez uma pausa para ver a reação do pai e, finalmente, puxou o gatilho. Para azar do filho, dos seus pais, do próprio assassino e de nós todos que vivemos nesta sociedade patética, a arma disparou. O assaltante, assustado e, enfim, farto, fugiu. Dele não mais se teve notícias.

Foi assim. Uma tragédia em um ato. Um tiro. Um rapaz morto. Pai e mãe mortos em vida. E milhares de leitores de Zero Hora nauseados após o café da manhã.

Eu pretendia concluir esse texto com uma reflexão. Iria comentar a minha imensa tristeza com o sofrimento dessa família. Iria falar da minha permanente sensação de angústia ao pensar que o terror que se abateu sobre esses pais não dorme, está também a nossa espreita. Mas não é preciso. Vocês são pais. Vocês já sabem.

junho 07, 2006

Prefácios

Alguém ainda lê prefácios? Eu não mais, confesso. Com o tempo e a idade, tornei-me avesso aos prefácios. Estou convencido de que sua leitura exige tenacidade e paciência acima das minhas forças. Considero-os insidiosos, como uma selva tropical, cheios de terríveis perigos a espreita do leitor incauto - pradarias desertas de significado, cachoeiras de palavras obscuras, vocábulos soltos ao vento. Nessa desolada travessia, V pode encantar-se com bichos-preguiça e se deixar ficar pelo caminho. Pode topar com peçonhentas tsé-tsé verbais e tombar vítima da moléstia do sono prematuro. E tudo isso para chegar, finalmente, ao marco zero da empreitada - o capítulo primeiro - e constatar que a tarefa propriamente dita não começou, há todo um livro ainda para ler!
...A propósito de prefácios, há uma lenda moura sobre a destruição da famosa biblioteca de Alexandria. Não deve ser verdade, mas merece ser contada. Em 640 DC, os árabes tomaram Alexandria. Tendo tido notícia de que na cidade havia "uma grande livraria, contendo todo o conhecimento do mundo", o comandante do exército invasor pediu instruções sobre como proceder a Omar, o Califa. Omar ordenou a queima dos livros sob o argumento de que "ou eles contradizem o Corão, caso em que são heréticos, ou eles concordam com o Corão, caso em que são supérfluos". Até aí vai a história (como contada por um bispo cristão, suspeito de tê-la inventado). Agora vem a lenda a que eu me referi antes. O Califa, antes de proferir o veredito, consultou um seu Vizir, que sugeriu a queima dos livros ou a seguinte alternativa: - "Determine que nossos escribas produzam extensos prefácios e que esses sejam antepostos às obras infiéis. Elas, assim soterradas, não oferecerão perigo aos crentes". O Califa optou pela solução que lhe pareceu mais direta: mandou tocar fogo na biblioteca. Alá seja louvado!

Dito isso, peço licença para, ao reverso de Vargas, deixar a história para reentrar na vida.

Acho que minha aversão aos prefácios tem a ver com o fato de que estou ficando velho, a vida está cada vez mais apressada e não li tudo o que deveria ter lido na juventude. Há imensas lacunas culturais a preencher. E o tempo está cada vez mais escasso. Por exemplo, esses dias me dei conta de que não li "Em busca do tempo perdido", de Proust, segundo dizem, uma obra magnífica, um verdadeiros marco da literatura moderna. Saí a campo em busca do livro e descobri, desanimado - pasmem os incultos - que são sete volumes. Onde, meu Deus, vou arranjar tempo para ir em busca do tempo que Proust perdeu?

O pessoal da Saraiva teve uma boa idéia. Estão editando as obras completas de Proust, em forma de revistas em quadrinhos. Essa talvez seja uma solução para o meu problema - se as letras forem graúdas e as gravuras coloridas.

maio 17, 2006

Hay que endurecer!

Entre tantas façanhas do Guevara, há uma literária, especialmente famosa. Trata-se da criação da frase - "Hay que endurecerse pero sin perder la ternura". A frase foi proclamada e entendida num contexto político - como uma receita do necessário equilíbrio pessoal que deve ter um líder revolucionário. Penso, todavia, que possa ter sido criada em circunstâncias bem diversas. Imagino a cena: Sierra Maestra, agosto de 1958. O jovem Che está deitado com Pepita, uma ardente e apaixonada revolucionária. Há um certo mal estar, um clima de fim de festa. O sexo não rolou, problemas com a vara do Che. Guevara, pensativo, imagina se não terá faltado ternura nas preliminares. Daí, num repente, o insight! Surgira o mote que hoje emporcalha muros e enfeita t-shirts pelo mundo a fora.
...Mas essas são preliminares, meu assunto é outro. Quero comentar rapidamente sobre a recente onda de violência em São Paulo, patrocinada pelos criminosos do PCC. Dezenas de policais foram executados a sangue-frio. Ônibus queimados. Paralisia no transporte público. Lojas fechadas. Toque de recolher de fato. Derrota, mais uma, da sociedade. Um sinal, mais um, do fim desses tempos brasileiros. Definitivamente "a coisa aqui tá preta" - como diria o Chico.

Mas "pau que bate em Chico, bate em Francisco", os representantes da legalidade decidiram ir a forra. Nesta quarta-feira, os jornais noticiam que a polícia caiu de pau na bandidagem e em uma única noite foram mortos outras tantas dezenas de criminosos, reequilibrando as contas. Os policiais aventam também a hipótese de ressucitar uma simpática instituição brasileira, dos tempos da Redentora, os Esquadrões da Morte. Simpática, aqui, infelizmente não tem qualquer conotação de ironia. É o salve-se quem puder geral. É o "nós ou eles"!

A frase do Guevara, como recomendação às nossas autoridades policiais, poderia ser, quem sabe, alterada para "Hay que endurecer pero sin volver a la tortura". Eu, cínico e direto como sou e já sem o vigor dos melhores anos, me contento com um simples "endurecerse". Ponto.

abril 07, 2006

A técnica do ABC

Cheguei à velhice. Definitivamente. É inexorável, eu sei - os que, como eu, não morreram antes do tempo, aportam necessariamente a essa última etapa da vida e têm de enfrentar as mazelas próprias da idade provecta. Essa perspectiva existencial, vista num contexto amplo, não chega a me tirar o sono. Sono, aliás, não seria problema nesse caso, já que nós, idosos, dele precisamos menos. Entretanto há uma conseqüência da velhice que me atemoriza, trata-se da minha progressiva - e vertiginosa, devo acrescentar - perda de memória. Os lapsos tem sido cada vez mais freqüentes, as lacunas cada vez mais profundas e o que é cruelmente irônico, não consigo esquecer que estou ficando esquecido.
Continua ...O embotamento da memória me parece especialmente grave porque estou convencido de que a minha identidade e minha própria auto - consciência dependem da companhia do meu passado. Só a lembrança dos meus prazeres e dores, dos meus amores e ódios e das minhas certezas e dúvidas me fazem ser o que sou. Mais ainda, se algo sobreviver à minha morte, só poderá ser a memória (e não uma "alma", essa coisa indefinível e estranha que nada tem a ver comigo!). No mais, é doloroso pensar que toda a minha bagagem afetiva e intelectual, acumulada a custa de tanto sacrifício, está sendo devolvida vagarosa e melancolicamente ao limbo da inexistência.

Mas chega de filosofia. Voltemos ao problema prático.

Tenho tentado de tudo para retardar o desenlace fatal. Palavras - cruzadas, gingobiloba, neurolinguística, etc. Aderi, inclusive, a prática de um exercício para reforçar a minha minguante e escorregadia função cerebral. A ginástica é assim: estabeleço uma categoria qualquer de itens, digamos, os meus sobrinhos por exemplo, e tento me lembrar do nome de toda a série, um por um. O diabo é que esse exercício, além de obsessivo - sempre há mais alguma categoria a me desafiar - é terrivelmente frustrante, pois raramente chego ao fim da seqüência. Ontem mesmo eu havia me proposto a lembrar do nome dos presidentes da FIFA, em ordem reversa. Passei facilmente pelo Blatter (de quem, por sinal, não lembro mais o primeiro nome) e, acreditem!, empaquei no Havelange. Justo no Havelange, um conterrâneo meu, famosíssimo, cinqüenta anos na mídia mundial. O curioso é que eu lembrava perfeitamente da fisionomia do sujeito, mas o nome permanecia encalhado em algum neurônio qualquer. Nesses casos eu apelo para um último recurso, a técnica do ABC. É assim: pego o A, a primeira letra do alfabeto, e tento ver se o nome procurado começa com essa inicial. Se não funcionar, passo para o B, depois para a letra seguinte e assim por diante. Se chegar ao Z, sem resultado, fica o consolo de que, pelo menos, não esqueci do alfabeto.

fevereiro 02, 2006

Os peixes do Danúbio

Ricardo
Aposto que você não sabia que Beethoven residiu durante toda a sua vida em Viena, na Áustria e que era um habitual consumidor de pescados do Danúbio, capturados nos arredores da cidade. Dizem que em virtude da extrema poluição naquele trecho do rio, o genial compositor acabou morrendo, vítima de um lento e progressivo envenenamento por chumbo.
... ...

dezembro 20, 2005

Ratos

No imaginário popular os ratos contrapõem-se aos homens. Trata-se de uma simbologia cultural – os ratos personificam a ausência de caráter, ao passo que os homens caracterizam-se por íntegros e retos. Há nesse modelo um preconceito contra os roedores e uma extremada condescendência para com os humanos. Em todo o caso, admitamos essa hipótese simbólica para comentar o quadro político atual, em que homens passaram a agir como ratos.
...Relembremos a história do PT. Até a tomada do poder, alardeavam a excelência do seu partido. Um partido honesto e íntegro, constituído por homens honestos. “O PT não rouba nem deixa roubar” - exclamava o seu líder máximo. Essa era a marca registrada do partido e o seu grande diferencial em relação aos demais. Mas, como ficou claro mais recentemente, isso não era verdade. Após assumir o poder, foi se tornando evidente que o PT abrigava também gatos – eis aí mais uma metáfora animal. E os bichanos partidários, que antes se alimentavam apenas nas lixeiras municipais, passaram a agir com desfaçatez crescente. A corrupção foi organizada em escala de indústria, com abrangência nacional.

Gatos – a gente sabe - existem em todos os partidos. Não é uma característica única do PT. Mas não quero falar deles, porque seu comportamento tem uma lógica simples, velha como o mundo, sem mistérios. Gatos não têm partido, não têm ideais. Gatos são apenas gatos. Vamos deixá-los de lado. O que me intriga e surpreende é porque os homens do PT se transformaram e passaram a agir como ratos.

De fato, a corrupção está comprovada. Há esmagadora evidência da cumplicidade de elementos da cúpula partidária. O comportamento do líder máximo também apóia a tese de que os fatos eram de seu conhecimento. Há um princípio jurídico, muito invocado no direito dos Estados Unidos, de que a prova deve ser suficiente para afastar qualquer dúvida razoável. Ultrapassado esse limite de razoabilidade, compete ao acusado provar a sua inocência. Alguém tem alguma dúvida sobre a responsabilidade do PT, nesse caso? Nem estou falando de responsabilidade penal, mas de responsabilidade política. Nem estou falando da utilização do caixa dois (fato que o PT admitiu e já “pediu desculpas” à sociedade). Estou falando de corrupção mesmo, do assalto aos cofres públicos, da lavagem de dinheiro e da evasão de divisas.

Em vista de tudo isso, o PT está à deriva. O barco está fazendo água. O naufrágio é iminente. Os ratos estão no convés, aflitos. Muitos sabem que vão morrer afogados no mar de lama. Mas nem assim enfrentam, como homens, os questionamentos e as cobranças que lhe são feitas. Desconversam. Silenciam. Ou dizem que as provas são insuficientes, que tudo deve ser apurado - doa a quem doer. Lembram que todos os partidos são iguais. Apontam estatísticas sobre as realizações do atual governo. Ou então negam. Negam pateticamente, a despeito de todas as evidências e à custa de toda a racionalidade.

Para onde foram os homens? Onde estão os que não se conformam em jogar fora a sua credibilidade, a sua história pessoal e a própria história do partido que ajudaram a criar? Onde estão os que se recusam, em respeito aos seus eleitores, de participar dessa ópera bufa?

dezembro 06, 2005

Deus existe!

Maria não tem nada. Só uma historia. Brasileira, pobre e favelada. Nem branca, nem preta, tem a cor, a cara, o cheiro e o jeito dos miseráveis. Profissão: catadora de lixo. Sua vida pode ser contada em dois tempos. Eis o resumo.
...Nasceu e se criou num canto qualquer do Cantagalo. Ajudou a mãe na cata de lixo desde que se entendeu por gente. Passou fome toda a vida. Não aprendeu a ler. Não conheceu o pai. Aos doze anos, já mais crescida e jeitosa, foi abusada pelo tio – estupro não, seu doutor, isso é coisa de rico, o tio lhe deu uns tapas para parar de chorar e meteu nela. Foi bem assim - mas reclamar para quem? Grávida aos quinze - emprenhou, nem soube como ou de quem, mas a cria lhe morreu ainda no bucho -. Aos dezoito encontrou o Jenival. Gostou dele - Jenival era boa gente. Tinha prumo na vida, tirava o seu sustento de biscates nas praias. Não mexia com droga, não tinha bronca com a polícia. Juntaram os trapos num barraco lá no Esqueleto.

Dois anos e uma filha depois, as coisas pioraram. - Foi aí que o Jenival deu de ficar ruim. Mas ruim por nada, ruim por gosto. Começou a beber. Largou do trabalho. Arranjou outra. Passou a bater nela, e cada vez com maior freqüência. - Batia por qualquer coisinha, as vezes porque implicava com o choro da criança, as vezes porque não gostava da comida, as vezes por nada, só por gosto. Batia prá valer, seu doutor, de deixar a gente estropiada.

Um dia, chegando em casa, o marido lhe pediu dinheiro. Ela deu o que tinha, uma nota de dez. O homem perguntou onde tinha arranjado a grana e ela lhe disse que ganhara no bingo, que às quintas-feiras tinha um daqueles sorteios de graça para chamar o povo. Então Jenival sentenciou: - Pois de agora em diante, tu vai lá todas as quintas. Se tu ganhar, me traz o dinheiro, se tu perder, te arranco o couro a pau. Daí por diante, toda a quinta-feira a surra era certa.

Na noite do crime, Jenivaldo, bêbado e pingando droga, apareceu em casa com uma arma. - Apontou pra minha cabeça e disse: reza vadia, que a tua hora chegou. Depois, sabe lá por que, trocou de idéia. Começou a rir. Deixou o revólver na mesinha e anunciou: A gente faz assim, vou dormir e tu mesmo te mata. Tu tem prazo até amanhã. Se amanhã tu ainda tá viva, daí eu acabo com tua raça. E caiu duro na cama, roncando feito um porco. E eu, doutor, fiquei alí, sem saber o que fazer. Fugir pra onde? Pedir ajuda pra quem?

Maria pegou pena mínima. Já está solta e voltou à sua rotina de fome e lixo. Mas não chora nem se queixa. Apenas não entende a sua vida - procura respostas que ninguém consegue lhe dar. Agora resolveu entrar para uma dessas igrejas evangélicas em que se tropeça a cada esquina. Por força das circunstâncias, está convencida de que Deus existe. Tem que existir! Quando mais não seja, para, algum dia, lhe dar as devidas explicações.

novembro 20, 2005

Nevado del Ruiz

Em 1985 - faz agora exatos vinte anos - ocorreu a última erupção do Nevado del Ruiz. Foi o segundo maior desastre vulcânico em todo o século passado. Quase trinta mil colombianos morreram afogados. Tratando-se de uma erupção vulcânica, é curioso que afogamento tenha sido a principal causa do morticínio. Mas há uma explicação para isso. É que a lava vulcânica que escorreu pela montanha foi se misturando com a neve das encostas para formar, ao final, um imenso e profundo mar de lama que sepultou milhares de pessoas na planície mais abaixo.
...No Brasil, como se sabe, não temos erupções vulcânicas. Mas nem por isso estamos livres das inundações de lama, que são, na verdade, fenômenos bem conhecidos e recorrentes em nossa história política. Volta e meia - como vem acontecendo agora -, a despeito das barreiras de contenção criadas pelas instâncias do poder constituído, a pressão subitamente extrapola os níveis controláveis e uma quantidade oceânica de imundície emerge de camuflados reservatórios subterrâneos e verte despudoradamente do planalto para as planícies deste país.

Mas aqui, diversamente da Colômbia, o mar de lama não sepulta; descobre.

Descobre as mazelas dos chamados Poderes da República. Demonstra a hipocrisia de projetos políticos que, alardeados como de construção da justiça social, destinam-se, de fato, a reprodução e perpetuação no poder. Expõe a verdadeira face das autoridades públicas e representantes políticos - faces enlameadas e indistintas, coloridas de egoismo. Escancara, enfim, as manobras diversionistas, os acordos mafiosos, a corrupção desenfreada e outros tantos cadáveres putrefatos.

O problema, evidentemente, transcende ao mau cheiro. Assim como na Colômbia, o desastre aqui também provoca vítimas. Poucas, é bem verdade. Uma cassação aqui, uma renúncia ali, uma prisão mais adiante e alguns suicídios, esses, é claro, em sentido metafórico, apenas põem termo à vida pública. Afinal, não vivemos mais os tempos de Vargas.

Mas se não morrem brasileiros, morre a cidadania, a esperança, a confiança na justiça e o ânimo para defender soluções políticas baseadas no direito, na ordem e na legalidade. E o que é ainda pior - o término do Estado, o salve-se quem puder geral, a franca desobediência civil, parecem cada vez mais próximos e consequentes.