No imaginário popular os ratos contrapõem-se aos homens. Trata-se de uma simbologia cultural – os ratos personificam a ausência de caráter, ao passo que os homens caracterizam-se por íntegros e retos. Há nesse modelo um preconceito contra os roedores e uma extremada condescendência para com os humanos. Em todo o caso, admitamos essa hipótese simbólica para comentar o quadro político atual, em que homens passaram a agir como ratos....Relembremos a história do PT. Até a tomada do poder, alardeavam a excelência do seu partido. Um partido honesto e íntegro, constituído por homens honestos. “O PT não rouba nem deixa roubar” - exclamava o seu líder máximo. Essa era a marca registrada do partido e o seu grande diferencial em relação aos demais. Mas, como ficou claro mais recentemente, isso não era verdade. Após assumir o poder, foi se tornando evidente que o PT abrigava também gatos – eis aí mais uma metáfora animal. E os bichanos partidários, que antes se alimentavam apenas nas lixeiras municipais, passaram a agir com desfaçatez crescente. A corrupção foi organizada em escala de indústria, com abrangência nacional.
Gatos – a gente sabe - existem em todos os partidos. Não é uma característica única do PT. Mas não quero falar deles, porque seu comportamento tem uma lógica simples, velha como o mundo, sem mistérios. Gatos não têm partido, não têm ideais. Gatos são apenas gatos. Vamos deixá-los de lado. O que me intriga e surpreende é porque os homens do PT se transformaram e passaram a agir como ratos.
De fato, a corrupção está comprovada. Há esmagadora evidência da cumplicidade de elementos da cúpula partidária. O comportamento do líder máximo também apóia a tese de que os fatos eram de seu conhecimento. Há um princípio jurídico, muito invocado no direito dos Estados Unidos, de que a prova deve ser suficiente para afastar qualquer dúvida razoável. Ultrapassado esse limite de razoabilidade, compete ao acusado provar a sua inocência. Alguém tem alguma dúvida sobre a responsabilidade do PT, nesse caso? Nem estou falando de responsabilidade penal, mas de responsabilidade política. Nem estou falando da utilização do caixa dois (fato que o PT admitiu e já “pediu desculpas” à sociedade). Estou falando de corrupção mesmo, do assalto aos cofres públicos, da lavagem de dinheiro e da evasão de divisas.
Em vista de tudo isso, o PT está à deriva. O barco está fazendo água. O naufrágio é iminente. Os ratos estão no convés, aflitos. Muitos sabem que vão morrer afogados no mar de lama. Mas nem assim enfrentam, como homens, os questionamentos e as cobranças que lhe são feitas. Desconversam. Silenciam. Ou dizem que as provas são insuficientes, que tudo deve ser apurado - doa a quem doer. Lembram que todos os partidos são iguais. Apontam estatísticas sobre as realizações do atual governo. Ou então negam. Negam pateticamente, a despeito de todas as evidências e à custa de toda a racionalidade.
Para onde foram os homens? Onde estão os que não se conformam em jogar fora a sua credibilidade, a sua história pessoal e a própria história do partido que ajudaram a criar? Onde estão os que se recusam, em respeito aos seus eleitores, de participar dessa ópera bufa?
dezembro 20, 2005
Ratos
No imaginário popular os ratos contrapõem-se aos homens. Trata-se de uma simbologia cultural – os ratos personificam a ausência de caráter, ao passo que os homens caracterizam-se por íntegros e retos. Há nesse modelo um preconceito contra os roedores e uma extremada condescendência para com os humanos. Em todo o caso, admitamos essa hipótese simbólica para comentar o quadro político atual, em que homens passaram a agir como ratos....
dezembro 06, 2005
Deus existe!
Maria não tem nada. Só uma historia. Brasileira, pobre e favelada. Nem branca, nem preta, tem a cor, a cara, o cheiro e o jeito dos miseráveis. Profissão: catadora de lixo. Sua vida pode ser contada em dois tempos. Eis o resumo....Nasceu e se criou num canto qualquer do Cantagalo. Ajudou a mãe na cata de lixo desde que se entendeu por gente. Passou fome toda a vida. Não aprendeu a ler. Não conheceu o pai. Aos doze anos, já mais crescida e jeitosa, foi abusada pelo tio – estupro não, seu doutor, isso é coisa de rico, o tio lhe deu uns tapas para parar de chorar e meteu nela. Foi bem assim - mas reclamar para quem? Grávida aos quinze - emprenhou, nem soube como ou de quem, mas a cria lhe morreu ainda no bucho -. Aos dezoito encontrou o Jenival. Gostou dele - Jenival era boa gente. Tinha prumo na vida, tirava o seu sustento de biscates nas praias. Não mexia com droga, não tinha bronca com a polícia. Juntaram os trapos num barraco lá no Esqueleto.
Dois anos e uma filha depois, as coisas pioraram. - Foi aí que o Jenival deu de ficar ruim. Mas ruim por nada, ruim por gosto. Começou a beber. Largou do trabalho. Arranjou outra. Passou a bater nela, e cada vez com maior freqüência. - Batia por qualquer coisinha, as vezes porque implicava com o choro da criança, as vezes porque não gostava da comida, as vezes por nada, só por gosto. Batia prá valer, seu doutor, de deixar a gente estropiada.
Um dia, chegando em casa, o marido lhe pediu dinheiro. Ela deu o que tinha, uma nota de dez. O homem perguntou onde tinha arranjado a grana e ela lhe disse que ganhara no bingo, que às quintas-feiras tinha um daqueles sorteios de graça para chamar o povo. Então Jenival sentenciou: - Pois de agora em diante, tu vai lá todas as quintas. Se tu ganhar, me traz o dinheiro, se tu perder, te arranco o couro a pau. Daí por diante, toda a quinta-feira a surra era certa.
Na noite do crime, Jenivaldo, bêbado e pingando droga, apareceu em casa com uma arma. - Apontou pra minha cabeça e disse: reza vadia, que a tua hora chegou. Depois, sabe lá por que, trocou de idéia. Começou a rir. Deixou o revólver na mesinha e anunciou: A gente faz assim, vou dormir e tu mesmo te mata. Tu tem prazo até amanhã. Se amanhã tu ainda tá viva, daí eu acabo com tua raça. E caiu duro na cama, roncando feito um porco. E eu, doutor, fiquei alí, sem saber o que fazer. Fugir pra onde? Pedir ajuda pra quem?
Maria pegou pena mínima. Já está solta e voltou à sua rotina de fome e lixo. Mas não chora nem se queixa. Apenas não entende a sua vida - procura respostas que ninguém consegue lhe dar. Agora resolveu entrar para uma dessas igrejas evangélicas em que se tropeça a cada esquina. Por força das circunstâncias, está convencida de que Deus existe. Tem que existir! Quando mais não seja, para, algum dia, lhe dar as devidas explicações.
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