Um conhecido soneto de Raimundo Correa permite duas associações com o atual momento político: uma primeira, debochada e brincalhona, sobre a debandada dos dirigentes petistas do governo; uma outra, desiludida e nostálgica, sobre os sonhos dos milhões de eleitores que acreditaram em Lula e em seu partido.
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As pombas.
Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
de pombas vão-se dos pombais, apenas
raia sangüinea e fresca a madrugada.
E à tarde, quando a rígida nortada
sopra, aos pombais, de novo elas, serenas,
ruflando as asas, sacudindo as penas,
voltam todas em bando e em revoada...
Também dos corações onde abotoam
os sonhos, um a um, céleres voam,
como voam as pombas dos pombais;
No azul da adolescência as asas soltam.
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam.
Eles aos corações não voltam mais.