Certo dia - faz tempo, eu deveria ter uns 14 anos - a mãe e as tias, que acendiam velas tanto aos padres quanto a Kardec, voltaram de um centro espírita com “receitas” para as crianças. Entendam-se tais receitas como curtos textos sobre os pacientes, supostamente ditadas por mentores espirituais. A minha, diferentemente das demais, estava “muito boa”, no dizer da mãe. Informava que eu “tinha missão a cumprir”.
Minha primeira reação foi de vaidade: Ricardo, quem diria, finalmente um protagonista no Plano Universal! A segunda, não menos pueril, foi de aliviada segurança: já que a tarefa supostamente deveria ser realizada no curso desta vida, minha permanência neste vale de [então escassas] lágrimas estava garantida, pelo menos enquanto eu não cumprisse o encargo. Dadas essas razões, concordei que a receita era, de fato, muito boa. Pena que não fornecesse detalhes adicionais sobre o que me seria exigido.
O tempo passou e pelo menos até agora minha vido tem sido absolutamente comum. Os pés, sempre os tive no chão, prudentemente calçados. Não fiz a guerra nem promovi a paz. Não construi castelos nem queimei pontes. A menos de uma inesperada e radical mudança de vida, meu jazigo conterá um epitáfio trivial: nasceu, cresceu, amou, riu, chorou, teve filhos e morreu.
Com tal biografia, é improvável que a razão de minha existência se tenha realizado. Mas, não será possível que, mesmo sem me dar conta, já tenha eu sido autor da façanha anunciada pelos espíritos? Saber se estou quites com o meu destino passa pelo prévio conhecimento do que seria a missão tão laconicamente anunciada.
Não parece difícil a tarefa de descobrir "la raison d’être" de quem, por gênio ou talento, se sobressai das demais. Qualquer um pode dar bons palpites sobre a missão de um Einstein, por exemplo. Mas, ao contrário, descobrir o porque cósmico dos medíocres requer uma pitada de talento ou até um traço de gênio.
Afinal, por que ou para que nós, simples mortais, existimos? Talvez apenas para formular possíveis respostas a essas próprias questões. Se não é essa toda nossa missão, será, pelo menos, uma sua necessária preliminar. Com base em tal hipótese, a essa investigação venho dedicando os meus últimos anos.