agosto 12, 2008

Estação Outono

Estação Outono, penúltima parada. O fim do princípio do fim do caminho. Frutos maduros. Brisa suave. Dourado entardecer. De malas prontas, aguardo pacientemente o trem. Na plataforma, os ponteiros de um imenso relógio alimentam-se, inexoráveis, de misteriosas horas romanas. Vim de onde não sei, de mais longe do que me possso lembrar. Humano que sou, acertei no tanto possível e errei no quanto justificável. Agora dou por conclusa a obra e respiro o conforto de quem apenas espera um trem. Trem que chegará pontualmente, em hora tão incerta quanto definitiva, e me levará, afinal, a um outro início.

julho 30, 2008

Mantra

Por detrás daquele monte
passa boi, passa boiada ...

Passa a vida, apressada,
desvalida, desvairada,
sem um norte.

Certa é a morte!
A vida é, pois,
passaporte
para o nada.

junho 25, 2008

Minhas queridas manas

Meu nome - claro, vocês sabem - é Ricardo. Mas deveria ser também Luis. Deixa explicar. Eu nasci em 21 de junho, dia de São Luis Gonzaga e "la nona", católica como era, queria homenagear o santo do dia. Mas a mãe fazia questão que o nome fosse Ricardo. Num primeiro momento, elas teriam chegado a um acordo: ficaria Luis Ricardo. Ou Ricardo Luis, que sei! Mas na hora do batizado, Dona Dulce, num rompante puerperal - sabem como as mães são ciosas de suas prerrogativas - rompeu o acordo existente e abortou o Luis. Ficou só Ricardo. Ricardo Ramos Baldi. Muito prazer!
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E daí? - perguntarão vocês. Daí que o Luis nasceu junto comigo. Veio ao mundo em uma outra dimensão, só por mim percebida. De pequeno, a gente conversava quando estávamos sozinhos. Coisas de criança, diziam. Amigo invisível, diziam. Nada disso. Era ele que vez ou outra aparecia para brincar comigo.

Houve uma curta época, eu tinha uns cinco anos, em que o Luis esteve muito presente. A gente se via diariamente. É que tínhamos nos mudado para aquela casa da Rua 20 de Setembro - vocês não a conheceram. Era uma casa grande, velha e feia. Habitada por bruxas. E de noite, quando elas vinham do porão para o meu quarto, eu me escondia atrás dele, até que o sono me libertasse do medo.

Depois cresci e o Luis se afastou.

Anos depois, eu já maduro e torto, o reencontrei. Ele veio, decerto, porque sabia que eu precisava. No início, pedi apenas que me representasse em velórios - o Luis tinha mais jeito e prumo. Dizia e fazia as coisas certas nas horas apropriadas. Conseguia o delicado equilíbrio entre passar despercebido e constar como presente.

Fui me acostumando com a sua disponibilidade. Passei a delegar mais e mais tarefas. Me dar carona da casa para o trabalho. Participar de reuniões-almoço, atender visitas, fazer o rancho no super. Ele acabou por se encarregar de toda a minha rotina. Virou uma espécie de piloto automático. Assumiu o controle.

Acontece que o Luis também vem sofrendo a ação do tempo. Está mais preguiçoso, mais esquecido, mais propenso a cometer gafes. Chega quando menos espero e parte sem aviso. As vezes me prega peças. De repente me passa a direção do carro em plena via expressa, dois desvios após a saída para o aeroporto. Esquece a carteira no bolso do outro paletó e eu é que tenho que pagar a conta. Coisas desse gênero.

Vejam só que aconteceu ontem. Acordei assutado no meio da noite - lá estava o Luis me dizendo que fez uma lamentável confusão. Mandou para ti, Beth, o cartão de teu aniversário, Paula. E isso que eu recomendei tanto ... Mas, sabe como é, na hora da ação é ele que acaba entrando em campo e faz as confusões.

Imperdoável. Vocês devem ter pensado: "Caco tá gagá"! Com toda a razão, aliás. Mas é tudo culpa do Luis, o meu piloto automático, que desregulou de vez e agora me passou a bola nessa roubada, para as devidas explicações.

Não há explicações. Mas amo vocês. Todos os dias do ano.

Ricardo.


PS. O sonso vive me acusando! Mas nesse caso, assumo a culpa. E peço desculpas.

Atenciosamente

Luis.

junho 24, 2008

Canibais

Canibais que somos,
temos que metabolizar
os nossos mortos.

Mastigando-os em orações,
deglutindo-os em soluços,
excretando-os em lágrimas
até a sua consumação final.

Lentamente ...

com a corrosiva paciência dos ácidos
a dissolver os vestígios de uma pérola.

Prá não dizer que não falei de flores!

Do amor perfeito, no meu peito, sempre viva ...
esplendorosa, fresca rosa de carmim.

O amor distante a todo instante me procura ...
persistência da fragrância de jasmim.

Do amor extinto eu já sinto dor amarga ...
mal ferida margarida morre em mim.

Os meus amores plantam flores no meu peito,
mas a saudade é que cultiva esse jardim.