setembro 11, 2007

Os caminhos tortos do Judiciário

Um certo Josoé da Silva, servente de profissão, foi acusado de furtar algumas peças de roupa deixadas num quarto do hotel em que trabalhava. O hóspede deu pela falta das roupas, chamou a polícia, que identificou e prendeu Josoé. As roupas, avaliadas em R$ 95, foram restituídas ao seu legítimo dono. Esse foi o crime atribuído ao servente. Ponto.

E aqui começa a novela. A autoridade policial ultimou suas diligências, concluiu o inquérito e o remeteu ao Ministério Público. O MP ofereceu denúncia que foi rejeitada na primeira instância, tendo a juíza justificado sua decisão em nome do "princípio da insignificância". O MP, inconformado, recorreu dessa decisão ao Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Esse manteve a decisão do primeiro grau, considerando que "a conduta do acusado não causou lesividade tão relevante à ordem social" e que a onerosidade inerente ao processo seria desproporcional à gravidade do crime. O MP, ainda inconformado, levou o caso ao Superior Tribunal de Justiça. Os ministros do STJ, após cuidadoso exame, entenderam de anular as decisões anteriores, determinando fosse recebida a denúncia e instaurada a ação penal. Aí entrou em cena a Defensoria Pública da União, para impetrar Habeas Corpus em favor de Josoé perante o Supremo Tribunal Federal. A Defensoria Pública sustenta que o provimento do Recurso Especial pelo STJ, ao ordenar o recebimento da denúncia, afasta, "equivocadamente, a aplicação do princípio da insignificância" causando "sério e efetivo constrangimento ao impetrante", solicita liminarmente "a suspensão dos efeitos da decisão do STJ e, no mérito, o trancamento da ação penal" alegando "a ausência de justa causa para a propositura da ação".

Quanto tempo terá á decorrido desde o delito? Duvido que não se tenham passado pelo menos dois anos. R$95!!! Nesse momento, a continuidade do processamento desse tormentoso e fundamental caso depende da decisão dos ministros do "Pretório Excelso" ...

janeiro 31, 2007

A revolução das abelhas virgens


A "Nature" de novembro do ano passado trouxe uma notícia interessante, um estudo de dois cientistas britânicos sobre o comportamento de abelhas, vespas e congêneres. Os autores derrubam o mito de que a reprodução desses insetos, que, como se sabe, é função privativa da rainha-mãe, seja regido por um "altruísmo reprodutivo comunitário natural" - uma concessão instintiva das plebéias à nobreza, em nome, quem sabe, do aprimoramento genético da espécie ou da preservação da ordem e do progresso da colméia.
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Eu, que nunca tinha ouvido falar desse assunto, até imaginava que as obreiras eram estéreis. Mas fiquei sabendo que não; elas não sofrem de qualquer impedimento genético. Dispõem de um aparelho reprodutor plenamente funcional e são aptas a procriar. O estudo revela - e este é o ponto central - que não há uma renúncia voluntária das abelhas à procriação, nada de "altruismo reprodutivo". Na verdade, muitas operárias, inconformadas com o seu status social, insistem em botar ovos. Mas esses são sistematicamente destruídos pela rainha e por suas auxiliares mais chegadas. Quanto mais eficaz a destruição, menos operárias se dispõem a transgredir a lei.

Afirmam os autores (e aqui cito literalmente o texto da Folha de São Paulo, onde a notícia foi publicada) que "vínculos familiares próximos foram provavelmente necessários para a evolução das sociedades de insetos. Nessas circunstâncias, ajudar a sua mãe é o modo mais eficiente de propagar seus próprios genes. Quando a eussocialidade se originou havia provavelmente muito pouca coerção e os indivíduos que ajudavam o faziam por estar criando parentes próximos. Mas desde então muita coisa mudou nas sociedades de insetos. Uma das novidades foi o desenvolvimento de mecanismos para prevenir que alguns insetos ajam contra os interesses da sociedade. Há quem acredite que as rainhas poderiam usar as operárias como 'escravas', forçando-as a tal situação ao lhes dar pouco alimento."

Aí está! Nem mesmo nas colméias, esses modelos por excelência da vida comunitária, as simpáticas abelhinhas permanecem fiéis ao mito socialista. Adotaram-no em priscas eras, premidas pelas circunstâncias. Mas a História e a Ciência se encarregaram de desmontar a fraude. E agora, como se vê, o proletariado apícola conspira no breu das tocas. Morram as czarinas! - devem estar suplicando as pobres obreiras, acendendo velas nos becos. Marx, se vivo estivesse, diria a essas desafortunadas - mas dessa vez meio incerto quanto ao sentido do seu repto: Operárias de todo o mundo, uní-vos!

E por falar em socialismo e animais, lembrei-me do latino Chaves. Ou Chavez, que seja. Refiro-me não ao cômico mexicano, mas àquele orangotango de olhar obtuso e enraivecido que tomou posse da Venezuela. Ele se autoproclama defensor do povo e promete trilhar de novo um caminho que - até as abelhas já desconfiam - leva a lugar nenhum. Mas a surrada afirmação de defesa dos pobres e oprimidos ainda é um bom mote. E para Chavez o epílogo da empreitada não importa, o que vale é o seu trajeto individual.

Como dizia o revolucionário Bakunin: "Quem duvida disso não conhece a natureza humana".