agosto 30, 2006

A tragédia de Plutão

Notícia recente dá conta de que a União Astronômica Internacional, mediante resolução desta última quinta-feira, determinou que Plutão não é um planeta, mas é, sim, um "planeta anão". Aproveito para explicar que, segundo a mesma notícia, são três as categorias planetárias, em ordem hierárquica decrescente: "planeta", "planeta anão" e "pequeno corpo do sistema solar".
...A impressão que fica da notícia é de que essa tal União Astronômica, liminarmente, sem nem mesmo ouvir a defesa do acusado, rebaixou Plutão de posto. Sem nenhuma cerimônia, arrancaram-lhe o status cósmico, proibiram-no de sentar à mesa com os seus oito ex-irmãos e mandaram-no procurar a sua turma. Há quem diga, inclusive, que para impedir a corrupção juvenil, serão queimados os livros escolares que contrariam a verdade oficial. Não se sabe ainda quais serão as sanções aplicadas a Mr. Clyde Tombaugh, o astrônomo que em 1930 fotografou Plutão pela primeira vez, atribuindo indevidamente o status de planeta ao anão recém descoberto.

Devido a imensa distância, imagino que o desafortunado Plutão ainda não tenha sido oficialmente notificado da decisão dos terráqueos. Daqui há alguns anos, quando perceber que caiu em desgraça, bem pode ser que o infeliz ex-planeta murche ainda mais, de humilhação e vergonha. Correrá então até o risco, conforme o grau desse derradeiro apequenamento psicológico, de vir a ser enquadrado - oh, suprema ignomínia! - na terceira e úiltima categoria, um mero "pequeno corpo do sistema solar", um verdadeiro pária cósmico.

Mas por enquanto não sabe. Permanece absolutamente impassível. Sua forma e volume são os mesmos. Nenhuma alteração, milimétrica que seja, em sua órbita. Nenhuma variação de temperatura. Nem rubor nem palidez modificam a coloração de sua face.

Por enquanto, Plutão é Plutão, é apenas Plutão.

agosto 08, 2006

Roleta russa em Cachoeirinha

Terça-feira passada Zero Hora noticiou um crime ocorrido em Cachoeirinha, uma cidade próxima daqui de Porto Alegre.

Foi assim. O sujeito invadiu uma residência no fim da madrugada. Rendeu toda a família: o dono da casa, sua mulher e o filho único do casal. O bandido então deu uma busca pela casa, pegou o dinheiro que havia, os celulares e o que mais encontrou de valor. As três vítimas, amarradas, assistiram tudo passivamente, sem poder esboçar qualquer reação.

O assaltante já tinha ganho o seu dia. O seu desjejum diário de droga estava garantido. Tivesse se mandado e tudo estaria acabado. Nem mesmo notícia daria, só um assunto para comentar com os vizinhos e o prejuízo de alguns trocados. Só mais uma surrada reedição de um corriqueiro drama urbano.

Mas aí, por cochilo divino ou arte do diabo, já de saída, no último momento o assaltante teve uma idéia que lhe pareceu divertida. Algo gratuito, "just for fun". Voltou e perguntou ao homem, se ele gostava mesmo do filho. Informado que sim, que o pai o amava, mandou que o garoto se ajoelhasse a sua frente. Botou uma bala no revólver, rolou o tambor, apontou solenemente para a cabeça do jovem, fez uma pausa para ver a reação do pai e, finalmente, puxou o gatilho. Para azar do filho, dos seus pais, do próprio assassino e de nós todos que vivemos nesta sociedade patética, a arma disparou. O assaltante, assustado e, enfim, farto, fugiu. Dele não mais se teve notícias.

Foi assim. Uma tragédia em um ato. Um tiro. Um rapaz morto. Pai e mãe mortos em vida. E milhares de leitores de Zero Hora nauseados após o café da manhã.

Eu pretendia concluir esse texto com uma reflexão. Iria comentar a minha imensa tristeza com o sofrimento dessa família. Iria falar da minha permanente sensação de angústia ao pensar que o terror que se abateu sobre esses pais não dorme, está também a nossa espreita. Mas não é preciso. Vocês são pais. Vocês já sabem.