Alguém ainda lê prefácios? Eu não mais, confesso. Com o tempo e a idade, tornei-me avesso aos prefácios. Estou convencido de que sua leitura exige tenacidade e paciência acima das minhas forças. Considero-os insidiosos, como uma selva tropical, cheios de terríveis perigos a espreita do leitor incauto - pradarias desertas de significado, cachoeiras de palavras obscuras, vocábulos soltos ao vento. Nessa desolada travessia, V pode encantar-se com bichos-preguiça e se deixar ficar pelo caminho. Pode topar com peçonhentas tsé-tsé verbais e tombar vítima da moléstia do sono prematuro. E tudo isso para chegar, finalmente, ao marco zero da empreitada - o capítulo primeiro - e constatar que a tarefa propriamente dita não começou, há todo um livro ainda para ler!
...A propósito de prefácios, há uma lenda moura sobre a destruição da famosa biblioteca de Alexandria. Não deve ser verdade, mas merece ser contada. Em 640 DC, os árabes tomaram Alexandria. Tendo tido notícia de que na cidade havia "uma grande livraria, contendo todo o conhecimento do mundo", o comandante do exército invasor pediu instruções sobre como proceder a Omar, o Califa. Omar ordenou a queima dos livros sob o argumento de que "ou eles contradizem o Corão, caso em que são heréticos, ou eles concordam com o Corão, caso em que são supérfluos". Até aí vai a história (como contada por um bispo cristão, suspeito de tê-la inventado). Agora vem a lenda a que eu me referi antes. O Califa, antes de proferir o veredito, consultou um seu Vizir, que sugeriu a queima dos livros ou a seguinte alternativa: - "Determine que nossos escribas produzam extensos prefácios e que esses sejam antepostos às obras infiéis. Elas, assim soterradas, não oferecerão perigo aos crentes". O Califa optou pela solução que lhe pareceu mais direta: mandou tocar fogo na biblioteca. Alá seja louvado!
Dito isso, peço licença para, ao reverso de Vargas, deixar a história para reentrar na vida.
Acho que minha aversão aos prefácios tem a ver com o fato de que estou ficando velho, a vida está cada vez mais apressada e não li tudo o que deveria ter lido na juventude. Há imensas lacunas culturais a preencher. E o tempo está cada vez mais escasso. Por exemplo, esses dias me dei conta de que não li "Em busca do tempo perdido", de Proust, segundo dizem, uma obra magnífica, um verdadeiros marco da literatura moderna. Saí a campo em busca do livro e descobri, desanimado - pasmem os incultos - que são sete volumes. Onde, meu Deus, vou arranjar tempo para ir em busca do tempo que Proust perdeu?
O pessoal da Saraiva teve uma boa idéia. Estão editando as obras completas de Proust, em forma de revistas em quadrinhos. Essa talvez seja uma solução para o meu problema - se as letras forem graúdas e as gravuras coloridas.