
Entre tantas façanhas do Guevara, há uma literária, especialmente famosa. Trata-se da criação da frase - "Hay que endurecerse pero sin perder la ternura". A frase foi proclamada e entendida num contexto político - como uma receita do necessário equilíbrio pessoal que deve ter um líder revolucionário. Penso, todavia, que possa ter sido criada em circunstâncias bem diversas. Imagino a cena: Sierra Maestra, agosto de 1958. O jovem Che está deitado com Pepita, uma ardente e apaixonada revolucionária. Há um certo mal estar, um clima de fim de festa. O sexo não rolou, problemas com a vara do Che. Guevara, pensativo, imagina se não terá faltado ternura nas preliminares. Daí, num repente, o insight! Surgira o mote que hoje emporcalha muros e enfeita t-shirts pelo mundo a fora.
...Mas essas são preliminares, meu assunto é outro. Quero comentar rapidamente sobre a recente onda de violência em São Paulo, patrocinada pelos criminosos do PCC. Dezenas de policais foram executados a sangue-frio. Ônibus queimados. Paralisia no transporte público. Lojas fechadas. Toque de recolher de fato. Derrota, mais uma, da sociedade. Um sinal, mais um, do fim desses tempos brasileiros. Definitivamente "a coisa aqui tá preta" - como diria o Chico.
Mas "pau que bate em Chico, bate em Francisco", os representantes da legalidade decidiram ir a forra. Nesta quarta-feira, os jornais noticiam que a polícia caiu de pau na bandidagem e em uma única noite foram mortos outras tantas dezenas de criminosos, reequilibrando as contas. Os policiais aventam também a hipótese de ressucitar uma simpática instituição brasileira, dos tempos da Redentora, os Esquadrões da Morte. Simpática, aqui, infelizmente não tem qualquer conotação de ironia. É o salve-se quem puder geral. É o "nós ou eles"!
A frase do Guevara, como recomendação às nossas autoridades policiais, poderia ser, quem sabe, alterada para "Hay que endurecer pero sin volver a la tortura". Eu, cínico e direto como sou e já sem o vigor dos melhores anos, me contento com um simples "endurecerse". Ponto.