Cheguei à velhice. Definitivamente. É inexorável, eu sei - os que, como eu, não morreram antes do tempo, aportam necessariamente a essa última etapa da vida e têm de enfrentar as mazelas próprias da idade provecta. Essa perspectiva existencial, vista num contexto amplo, não chega a me tirar o sono. Sono, aliás, não seria problema nesse caso, já que nós, idosos, dele precisamos menos. Entretanto há uma conseqüência da velhice que me atemoriza, trata-se da minha progressiva - e vertiginosa, devo acrescentar - perda de memória. Os lapsos tem sido cada vez mais freqüentes, as lacunas cada vez mais profundas e o que é cruelmente irônico, não consigo esquecer que estou ficando esquecido.
Continua ...O embotamento da memória me parece especialmente grave porque estou convencido de que a minha identidade e minha própria auto - consciência dependem da companhia do meu passado. Só a lembrança dos meus prazeres e dores, dos meus amores e ódios e das minhas certezas e dúvidas me fazem ser o que sou. Mais ainda, se algo sobreviver à minha morte, só poderá ser a memória (e não uma "alma", essa coisa indefinível e estranha que nada tem a ver comigo!). No mais, é doloroso pensar que toda a minha bagagem afetiva e intelectual, acumulada a custa de tanto sacrifício, está sendo devolvida vagarosa e melancolicamente ao limbo da inexistência.
Mas chega de filosofia. Voltemos ao problema prático.
Tenho tentado de tudo para retardar o desenlace fatal. Palavras - cruzadas, gingobiloba, neurolinguística, etc. Aderi, inclusive, a prática de um exercício para reforçar a minha minguante e escorregadia função cerebral. A ginástica é assim: estabeleço uma categoria qualquer de itens, digamos, os meus sobrinhos por exemplo, e tento me lembrar do nome de toda a série, um por um. O diabo é que esse exercício, além de obsessivo - sempre há mais alguma categoria a me desafiar - é terrivelmente frustrante, pois raramente chego ao fim da seqüência. Ontem mesmo eu havia me proposto a lembrar do nome dos presidentes da FIFA, em ordem reversa. Passei facilmente pelo Blatter (de quem, por sinal, não lembro mais o primeiro nome) e, acreditem!, empaquei no Havelange. Justo no Havelange, um conterrâneo meu, famosíssimo, cinqüenta anos na mídia mundial. O curioso é que eu lembrava perfeitamente da fisionomia do sujeito, mas o nome permanecia encalhado em algum neurônio qualquer. Nesses casos eu apelo para um último recurso, a técnica do ABC. É assim: pego o A, a primeira letra do alfabeto, e tento ver se o nome procurado começa com essa inicial. Se não funcionar, passo para o B, depois para a letra seguinte e assim por diante. Se chegar ao Z, sem resultado, fica o consolo de que, pelo menos, não esqueci do alfabeto.