novembro 20, 2005

Nevado del Ruiz

Em 1985 - faz agora exatos vinte anos - ocorreu a última erupção do Nevado del Ruiz. Foi o segundo maior desastre vulcânico em todo o século passado. Quase trinta mil colombianos morreram afogados. Tratando-se de uma erupção vulcânica, é curioso que afogamento tenha sido a principal causa do morticínio. Mas há uma explicação para isso. É que a lava vulcânica que escorreu pela montanha foi se misturando com a neve das encostas para formar, ao final, um imenso e profundo mar de lama que sepultou milhares de pessoas na planície mais abaixo.
...No Brasil, como se sabe, não temos erupções vulcânicas. Mas nem por isso estamos livres das inundações de lama, que são, na verdade, fenômenos bem conhecidos e recorrentes em nossa história política. Volta e meia - como vem acontecendo agora -, a despeito das barreiras de contenção criadas pelas instâncias do poder constituído, a pressão subitamente extrapola os níveis controláveis e uma quantidade oceânica de imundície emerge de camuflados reservatórios subterrâneos e verte despudoradamente do planalto para as planícies deste país.

Mas aqui, diversamente da Colômbia, o mar de lama não sepulta; descobre.

Descobre as mazelas dos chamados Poderes da República. Demonstra a hipocrisia de projetos políticos que, alardeados como de construção da justiça social, destinam-se, de fato, a reprodução e perpetuação no poder. Expõe a verdadeira face das autoridades públicas e representantes políticos - faces enlameadas e indistintas, coloridas de egoismo. Escancara, enfim, as manobras diversionistas, os acordos mafiosos, a corrupção desenfreada e outros tantos cadáveres putrefatos.

O problema, evidentemente, transcende ao mau cheiro. Assim como na Colômbia, o desastre aqui também provoca vítimas. Poucas, é bem verdade. Uma cassação aqui, uma renúncia ali, uma prisão mais adiante e alguns suicídios, esses, é claro, em sentido metafórico, apenas põem termo à vida pública. Afinal, não vivemos mais os tempos de Vargas.

Mas se não morrem brasileiros, morre a cidadania, a esperança, a confiança na justiça e o ânimo para defender soluções políticas baseadas no direito, na ordem e na legalidade. E o que é ainda pior - o término do Estado, o salve-se quem puder geral, a franca desobediência civil, parecem cada vez mais próximos e consequentes.