Nesta última edição da Bienal do Mercosul estão expostas algumas curiosas obras: esculturas de chocolate. Isso mesmo, esculturas de cacau, leite e açúcar. Suponho que os organizadores da Bienal tenham reconhecido nessas coisinhas um relevante valor artístico para admiti-las ao acervo de um evento tão importante para a vida cultural da nossa província.
...Talvez o mérito das cremosas e doces miçangas advenha de que lá não estão apenas para serem vistas, mas para serem deglutidas. Essa dupla dimensão sensível, visual e gustativa, constitui o seu charme, a sua explicação, a sua razão de ser. O visitante chega, escolhe a que lhe pareça mais bela ou apetitosa e, em seguida – nhac! - devora-a, sob o olhar beneplácito e encorajador dos expositores. Imagino que os diabéticos encarem apenas a primeira etapa da experiência. As crianças, decerto, saltam diretamente para a segunda.
Seriam esses quitutes obras de arte? E sendo, teriam valor artístico suficiente para figurar no salão de exposições da Bienal que, como se sabe, não é um evento gastronômico, mas uma exposição de artes-visuais. Essas perguntas levam a uma outra questão, bem mais difícil: o que é uma obra de arte? Que conceito turvo e vasto é esse, que acolhe sob si tanto a Pietá de Michelangelo quanto as bombas de chocolate da Bienal? Não consegui elaborar uma boa definição. O melhor que posso dizer a esse respeito é que obra de arte, em geral, é aquela cuja contemplação provoca um estímulo sensorial associado à idéia de beleza.
Cabe aqui uma breve digressão. Camões, a versos tantos dos Lusíadas, referindo-se à divulgação das valerosas memórias portuguesas, promete: “cantando [as] espalharei por toda parte / se a tanto me ajudar engenho e arte”. Nessa passagem, o poeta reconhece implicitamente que arte e engenho são coisas diferentes, ainda que talvez conjuntamente necessárias para produzir a sua obra. A diferença sugerida por Luiz Vaz, penso eu, é de que a arte não pode ser construída segundo uma receita, um método racional, um algoritmo. É algo que, como os amigos, mora no lado esquerdo do peito ou, se você preferir, no hemisfério direito do cérebro. É emoção fixada na matéria. Engenho, por outro lado, é tecnologia, é razão construtiva, é produção material expressa por um conjunto de regras racionais conducentes ao resultado pretendido. Quem consegue descrever o modo como produz não é um artista, é, no máximo, um artesão.
Com esse critério distintivo em mente, voltemos ao caso da Bienal. Por tudo quanto se sabe, as peças de chocolate são fabricadas de forma tradicional, em fôrmas, obedecendo àlguma fórmula do tipo: 1) derreta o chocolate, 2) coloque na fôrma, 3) espere esfriar, etc. Portanto, pelo critério inspirado em Camões, as peças seriam definitivamente reprovadas. Mas alguém poderia argumentar que se tratam de guloseimas - destinadas à boca e não aos olhos. Que são preciosas gemas, excepcionalmente saborosas e aromáticas, indutoras de delírios gustativos. Bem, admitamos então que o mestre-cuca é um artista e produz verdadeiras obras de arte. Mas nem por isso caberia expô-las. Trata-se de arte culinária e não arte-visual. E essa última, afinal de contas, é a espécie artística que a Bienal se propõe a apresentar.
Mais ainda. O reconhecimento do valor de uma obra de arte está naturalmente associado a sua raridade. No caso extremo, ao fato de se tratar de um objeto único, diferente de tudo o mais no universo. Isso é do senso comum e é de fácil entendimento. Basta imaginar a seguinte hipótese. Se a Bienal trouxesse a Gioconda de Da Vinci – a própria tela original, quero dizer – é certo que a fila de ansiosos espectadores nada deveria àquela de Roma, quando da morte do último papa. Já a exibição de uma simples réplica do famoso quadro, por mais perfeita e bem acabada que fosse, redundaria apenas em silêncio, bocejos e moscas. Cada um dos chocolates da Bienal, a rigor, é único mas, como gêmeo perfeito dos demais, é trivial como a irmã bastarda da Gioconda. Essas peças, fabricados em série, carecem de seriedade. Atrairão moscas. Provocarão bocejos. E ocasionais bocados, vá lá.